São Paulo, 19 (AE) - O Brasil não precisa de controles para evitar um fluxo indesejável de capitais de curto prazo, segundo avaliação do presidente do Banco Central, Armínio Fraga Neto. A remuneração que os especuladores podem ter no Brasil, neste momento, não é atrativa. "O cumpom cambial - que representa a taxa de juros em dólar - não justifica a entrada de capitais de curto prazo", avaliou, durante palestra em almoço promovido pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBmec).
Durante sua palestra, Fraga concordou com a avaliação expressa pelo presidente do IBmec, Cláudio Haddad, de que a operação feita pelo Banco do Brasil - que ficou com R$ 6 bilhões em títulos da Prefeitura de São Paulo - não seria admitida pelos controles de fiscalização do Banco Central caso tivesse sido feita por uma instituição privada.
Ao ser perguntado por Haddad sobre o que falta para que os padrões de supervisão bancária aplicados às instituições privadas também sejam cobrados dos bancos públicos, Fraga respondeu que faltava "vontade".
"Mas a vontade existe e está sendo colocada em prática, talvez de uma forma mais gradual do que você gostaria", complementou, acrescendo que ele, Haddad, teria de aceitar sua palavra sobre a existência desta vontade, porque ele não poderia falar mais nada sobre esse assunto.
Mudanças - Durante a palestra, Fraga apontou três prioridades do governo no segundo semestre: aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, Reforma Tributária (que é o projeto de desenvolvimento mais importante que o País possui, na sua opinião) e Reforma da Previdência. Aproveitamento a presença do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) na platéia, Fraga pediu ajuda apoio do Congresso para que o País possa avançar na área fiscal.
Projeção - No segundo semestre, ponderou, com sorte e com competência o País deve consolidar avanços na área fiscal e eles serão favoráveis à política de metas de inflação e de maior autonomia do BC. "Mas, infelizmente, não vejo soluções instantâneas para as mudanças que estão acontecendo no Brasil", ponderou, explicando que o Brasil precisará de um ciclo político completo para saber se as mudanças que estão sendo introduzidas serão consolidadas.
Ainda sobre controle de capitais, Fraga disse que não vê sentido na adoção do chamado Imposto Tobin, que seria pago pelos capitais internacionais que se movem de um país para outro. No caso brasileiro, disse, a diferença entre o valor pago pelo dólar na compra e na venda já equivale a este tipo de taxa e a própria volatilidade da taxa de câmbio também inibe fortemente um grande fluxo de capitais especulativos de curto prazo.
"Mas não sou religioso a esse respeito e também não acho feio manter uma atitude vigilante quanto aos capitais de curto prazo", ponderou, acrescentado que instrumentos como IOF e depósitos compulsórios são temporários e não permanentes.
Segundo o senador Suplicy, em novembro o presidente Fernando Henrique Cardoso deverá encontrar James Tobin, o norteamericano autor da proposta do imposto mundial.

mockup