Rio - O jurista, escritor e historiador Raymundo Faoro morreu ontem pela manhã no Rio, em decorrência de um enfisema pulmonar. Tinha 78 anos. Autor do clássico ''Os Donos do Poder'' (1958), ele estava internado no hospital Copa D'Or, em Copacabana (zona sul).
Faoro presidiu a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de 1977 a 1979, quando foi um dos líderes do movimento pela anistia dos presos políticos e pela revogação dos Atos Institucionais do regime militar (1964-1985). O jurista ajudou a consolidar o processo de abertura política nos anos 70. Partiu dele, como presidente da OAB, uma das primeiras grandes denúncias contra a tortura de presos políticos.
Por essas razões, sua casa tornou-se ponto de encontro de políticos como Tancredo Neves e o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Lula chegou a propor que Faoro entrasse na disputa presidencial de 1989, como seu candidato a vice-presidente. O convite foi recusado.
O historiador se elegeu para a ABL (Academia Brasileira de Letras) em novembro de 2000, ocupando a cadeira número 6, que pertencera ao jornalista Barbosa Lima Sobrinho. A eleição, por unanimidade, foi considerado um marco na história da Academia.
Em virtude da fragilidade de sua saúde, a posse na ABL foi adiada quatro vezes, até se tornar, formalmente, um imortal, em setembro de 2002. Seu convívio com os acadêmicos, no entanto, foi pequeno, porque Faoro ficou doente novamente e não mais voltou à ABL.
Seu livro mais importante, ''Os Donos do Poder'', é considerado um dos mais importantes clássicos da sociologia do país. Outras duas importantes obras suas são ''Machado de Assis: A Pirâmide e o Trapézio'' (1975) e ''Existe um Pensamento Político Brasileiro?'' (1994).
O corpo do acadêmico foi velado na sede da ABL (centro) e enterrado no mausoléu da ABL, no cemitério São João Batista (Botafogo, zona sul). Como era de sua vontade, os restos mortais de sua mulher, Maria Pompéia, foram colocados no seu túmulo. Presente no enterro, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, representou o governo federal e o presidente Lula.
O filho caçula, André Leal Faoro, 41, contou que, antes da doença, o pai trabalhava numa obra sobre o militarismo. ''Não sabemos em que pé ela estava, só que ele já tinha terminado o trabalho de pesquisa. Não sei o que faremos com ela.'' Ele disse que a família estuda publicar uma coletânea de suas últimas grandes entrevistas.
Faoro foi descrito pelos três filhos como reservado, generoso e contador de histórias principalmente para os sete netos.

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