O ministro da Política Fundiária, Raul Jungmann, disse ontem, em Brasília, que não volta a dialogar com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) enquanto os integrantes do movimento não desocuparem prédios públicos do Rio Grande do Sul. O ministro acredita que o MST busca atingir o governo federal com as ocupações.
Um grupo de sem-terra ocupou ontem a sede da Receita Federal em Porto Alegre e outro permanece na sede do Incra. O protesto foi uma reação à decisão de Jungmann de suspender as ações de reforma agrária nos Estados (Mato Grosso, Goiás, Pernambuco e Rio Grande do Sul) onde ocorreram invasões de prédios públicos.
‘‘O MST suspendeu o diálogo. Paciência. Não temos que dialogar com quem suspende o diálogo. Nossa disposição, como sempre, é dialogar. Quem rompeu o diálogo foram justamente eles’’, disse Jungmann. O ministro acha que o fato tem relação com as eleições para governadores em outubro do ano passado. ‘‘Eles não fizeram (ocupações) antes por conta das eleições dos governos estaduais. No Rio Grande do Sul, eles (MST) são poder, têm a Secretaria da Educação, e são o número dois na Secretaria da Agricultura e Reforma Agrária.’’
Jungmann disse que suspendeu a reforma agrária nos Estados onde ocorreram invasões porque seria impossível trabalhar com as sedes do Incras ocupadas. O ministro pediu à Justiça a reintegração de posse dos prédios invadidos e a abertura de inquéritos pela Polícia Federal para apurar os responsáveis pelas invasões.
‘‘A reforma agrária foi suspensa, inclusive porque os Incras estão ocupados. É o reconhecimento de que, com as sedes invadidas e com constrangimento aos nossos funcionários, não há como fazer. Quem obrigou a suspensão da reforma agrária, que seguia absolutamente normal, foi o MST’’, disse o ministro. Jungmann lamentou a quebra do diálogo. ‘‘A partir do instante em que, rompendo o diálogo, eles invadiram o Incra, não há como fazer reforma agrária.’’
Os trabalhadores rurais sem-terra ligados ao MST que invadiram anteontem a sede do Incra em Recife (PE) libertaram os cerca de 30 funcionários tomados como reféns e desocuparam o prédio ontem, por ordem judicial. No entanto, além de Porto Alegre, os prédios do Incra em Goiânia (GO), Cuiabá (MT) e João Pessoa (PB) permaneciam invadidos até as 18 horas de ontem. A Justiça concedeu liminar de reintegração de posse em Goiânia, Cuiabá e João Pessoa, mas os sem-terra continuam nas três sedes. O objetivo principal das invasões é o de pressionar o governo federal a realizar modificações na política agrária e protestar contra o corte de créditos agrícolas.
Segundo o líder nacional do MST, João Pedro Stédile, só ontem a entidade realizou mobilizações em 11 Estados. ‘‘Nós estamos numa espécie de vigília, uma resistência. Nos comprometemos a preservar o patrimônio em todos os lugares do Brasil’’, afirmou ontem à tarde em Porto Alegre. Stédile afirmou que as invasões são ‘‘para que o governo federal se dê conta de que é uma cagada ficar cortando gastos sociais’’. Irônico, o líder do MST disse que os cortes ‘‘podem até agradar aos patrões do FMI, mas só geram mais tensões sociais’’. O líder do MST disse que as mobilizações vão continuar. ‘‘Até que em todos os Estados se recomponha o programa de reforma agrária’’.

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