Jungmann procura interlocutores fora do MST
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sábado, 15 de fevereiro de 1997
Agência Folha, de São Paulo 
Arquivo FolhaPériploEm apenas três dias, Jungmann levou a questão agrária a sete entidadesUm dos maiores esforços do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso na questão da reforma agrária, que lhe foi cobrada até na cerimônia em que recebeu o título de honoris causa da Universidade de Bolonha, na quinta-feira, tem sido o de mudar seus interlocutores.
O ministro da Política Fundiária, Raul Jungmann, tem procurado relativizar a imagem do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como entidade que mais tem se empenhado no País por mudanças. Foi com esse objetivo que Jungmann visitou, na semana anterior ao Carnaval, em apenas três dias, sete entidades de projeção nacional para cumprir o que chamou de périplo pela sociedade.
Oficialmente, suas visitas visavam cumprir uma pauta monótona, como fazer um balanço da reforma agrária. Na verdade, Jungmann fez um esforço para ampliar o debate para outras entidades além do MST. O País tem inúmeras entidades interessadas na questão agrária. O MST é apenas uma delas, insistiu Jungmann durante seus encontros, em Brasília e em São Paulo. Em todos eles, o ministro divulgou a idéia da criação de um fórum nacional para debater a reforma.
Nesse fórum, o lugar destinado ao MST seria igual ao de outras entidades que atuam na mesma faixa social mas discordam de seus métodos, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), ambas visitadas por Jungmann. Quando esteve na sede da CUT, no dia 5, o ministro ouviu reivindicações de Lafaiete Biet, coordenador do departamento rural da CUT, para quem a política para assentamentos do MST não é a mesma que nós defendemos. Biet queria a liberação de verbas para assentamentos de trabalhadores ligados à CUT no interior de São Paulo. Ele e vários membros desses assentamentos já pertenceram ao MST.
Na véspera do encontro com Jungmann, Biet reuniu-se com o superintendente do Incra em São Paulo, Jonas Villas Boas, e outros diretores. Eles lhe disseram que querem a criação de um fórum nacional para que não fiquem falando apenas com o MST.
Na avaliação do próprio MST, essa polarização beneficia a entidade e sua projeção na mídia e prejudica a imagem do governo como realizador de obras sociais, já que os integrantes do movimento questionam os resultados apresentados por Jungmann e contam com a simpatia da população. Entre os temas apresentados pelo ministro nessas reuniões, um dos que mais irrita o MST é o programa Cédula da Terra, lançado em janeiro. Por esse programa, serão destinados R$ 150 milhões à reforma agrária. O projeto prevê, entretanto, que o dinheiro (em parte financiado pelo Banco Mundial) será gerido pelos Estados e municípios, que liberariam créditos para a compra de terras por associações de sem-terra, a serem formadas.
Até agora, o dinheiro para a reforma agrária sempre foi liberado diretamente pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Isso facilita a ação de cobrança do MST, que geralmente opta por invadir as sedes do órgão nos vários estados para forçar a liberação de verbas.
O MST pretende acionar algum senador simpático ao movimento para questionar junto à Justiça Federal o Cédula da Terra. Vai alegar que o projeto utilizará dinheiro do Banco Mundial para a compra de terras improdutivas.
Esse projeto é uma aberração pública, diz João Pedro Stédile, coordenador do MST. É como tomar dinheiro emprestado para financiar fazendeiros.


