Jungmann acusa sem-terra e fazendeiros de conluio em invasões; número de ocupações é recorde
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de abril de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 28 (AE) - O número de invasões de terras nos primeiros quatro meses deste ano é recorde na história do País. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) registrou 244 invasões de terra de janeiro até hoje. Nos primeiros quatro meses do ano passado, que já tinha apresentado crescimento, foram registradas 170 invasões. O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, denunciou hoje, durante palestra na Escola de Inteligência Militar do Exército (Esimex), que está havendo "conluio" entre sem-terra e proprietários de terras.
Segundo o ministro, em 65% das invasões de terras os proprietários não estão impetrando ações de reintegração de posse, o que mostraria suposta negociação para a invasão e posterior venda da terra para o governo. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que garante ter realizado mais de 80 invasões este mês, promete fazer pesquisa para contestar a projeção do ministro.
O levantamento do número de invasões apresentado por Jungmann compreende o período entre janeiro e abril dos últimos quatros anos. O gráfico mostra que o número de invasões em 1999 vem superando as estatísticas dos últimos quatro anos, mesmo sem incluir o fechamento de todo o mês de abril. O Incra informou hoje que não há registro na história de tantas invasões. Somente em março deste ano foram registradas 95 invasões de terras. Raul Jungmann disse que os primeiros quatro meses do ano são sempre mais problemáticos por ser um período que concentra muitos dias comemorados pelos trabalhadores, exemplo do 1º de Maio, o Grito da Terra e o Dia Nacional de Invasões.
O ministro, no entanto, acha que está havendo conluio entre proprietários descapitalizados e movimentos sociais que invadem as terras deles. A projeção de que 65% dos proprietários não estariam impetrando ações de reintegração de posse foi feita a partir de levantamento do próprio governo, que recebe informações da Justiça. "De cada cinco invasões estão pedindo apenas uma reintegração de posse", disse o ministro. "O que aparece hoje como conflito é acordo entre privados".
Nordeste - Na interpretação de Jungmann, os maiores conluios estariam ocorrendo em áreas de decadência das atividades econômicas, exemplo do setor canavieiro do Nordeste e no setor algodoeiro do Paraná. São nestas áreas que o Incra tem registrado maior número de invasões. De janeiro até a primeira quinzena de abril, o instituto registrou 36 invasões em Alagoas, 49 em Pernambuco e 39 no Paraná. O ministro disse que é necessário criar o que chamou de "colchões sociais" para absorver mão-de-obra de setores que estão desempregando em massa.
Jungmann deu palestra na Esimex a pedido dos militares do serviço de inteligência, que auxiliam o governo no acompanhamento das ações dos sem-terra, infiltrando agentes do Exército. Militares ouvidos hoje disseram que estão preocupados com a arregimentação de desempregados e sem-teto pelos movimentos sociais. A segunda parte da palestra do ministro com os militares foi secreta.
Contag - O diretor de política agrária da Contag, Sebastião Neves Rocha, disse que Raul Jungmann está tentando "desqualificar a luta pela terra", feita pelos movimentos sociais. Rocha disse que a Contag irá realizar levantamento sobre o número de proprietários de terras que impetraram ação de reintegração de posse, para mostrar que Jungmann não está dizendo a verdade. "A União Democrática Ruralista (UDR) não teria pedido a minha prisão por invadir terras se este tipo de conluio estivesse acontecendo", disse Sebastião.


