Julgamento do massacre começa hoje
Agência Estado
O coronel Mário Colares Pantoja, um dos acusados pela morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás, no dia 17 de abril de 1996, deverá revelar hoje que, por medida de economia, o governo do Pará deixou de enviar uma tropa de choque para o local do confronto. Segundo o advogado Américo Leal, que defende o coronel, a tropa era bem mais preparada que os 150 PMs que estavam na operação. Além disso, Pantoja deverá revelar que a ordem para desobstruir a estrada onde estavam os sem-terra partiu do governador Almir Gabriel (PSDB).
Pantoja será ouvido hoje, na primeira das 27 sessões do julgamento dos 150 PMs que participaram da operação em Eldorado do Carajás. Ele, o major José Maria Pereira de Oliveira e o capitão Raimundo José Almendra Lameira serão os três primeiros a sentarem no banco dos réus no maior júri da história jurídica do País. O julgamento se estenderá até o dia 3 de dezembro.
Segundo o advogado, Pantoja recebeu a ordem para a desobstrução da PA-150, fechada no dia 16 de abril pelos sem-terra, pelo comandante da PM, Fabiano Lopes. O comandante disse ao coronel Pantoja que a ordem havia partido do governador que queria acabar logo com os distúrbios, afirmou Américo Leal. Pantoja também sabia da existência da tropa de choque que estava de prontidão em Belém. Se o choque fosse, por ser mais preparado, poderia ter evitado o confronto.
Nenhum dos três oficiais que serão julgados hoje pode falar. O advogado afirma que qualquer declaração que venha a ser dada por eles poderá gerar problemas para a defesa ou até mesmo causar-lhes prisão. Eles não podem dar entrevistas, pois estão sob ameaça de prisão, diz Leal. Entretanto, o advogado afirma que o coronel Mário Pantoja irá revelar fatos novos, já que ainda não falou em juízo e este será seu primeiro interrogatório.
O julgamento Apesar de ser um julgamento histórico, a população de Belém continua indiferente ao que irá acontecer a partir das 8 horas de hoje, no auditório da Universidade da Amazônia (Unama). Para evitar qualquer problema na área externa do estabelecimento, onde sem-terra e policiais militares poderão dividir o mesmo espaço, a PM decidiu convocar 500 soldados para atuar nas 27 sessões do júri. Outros 200 homens estão em regime de prontidão.
A direção da Unama resolveu colocar um detector de metais na entrada do auditório, e o comando da Polícia Militar vai isolar toda a área com cordas para evitar aglomeração de pessoas. Os bares próximos ao local ficarão fechados durante os dias de julgamento, enquanto que a rua onde está situada a universidade será interditada logo nas primeiras horas da manhã.
Além dos ministros de Política Fundiária, Raul Jungmann, e da Justiça, José Carlos Dias - que já teriam confirmado presença, estão sendo esperados o secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, e o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, João Pedro Stédile. Tanto partidos de esquerda quanto de direita também enviaram representantes e já foram confirmadas as presenças de Jair Bolssonaro (PPB-RJ), do ex-deputado estadual paulista, Carlos Conti (ex-integrante da Rota) e José Genoíno (PT-SP).
Como foi o massacre
1. Cerca de 1.200 sem-terra bloqueiam a rodovia PA-150, na altura do km
100, em um local conhecido como curva do S. Cerca de 200 PMs são enviados à área para liberar a estrada.
2. O primeiro grupo de policiais a chegar é o de Parauapebas, que pára a 600 m de barricada dos sem-terra. PMs vão negociar, mas recuam em seguida (disseram ter sido recebidos a tiros).
3. Vindos de Marabá, PMs chegam a uma barricada do outro lado do bloqueio, a 300 m da primeira. Os policiais, que dizem ter sido recebidos a tiros, atiram bombas de gás e disparam tiros de metralhadora, primeiro para o
alto e em seguida nas pernas dos sem-terra.
4. Os sem-terra reagem com alguns tiros de revólver e avançam contra os
PMs atirando pedras, pedaços de madeira, foices e facões. O comandante da operação, coronel Mário Pantoja, de Marabá, manda a PM intensificar o
fogo.
5. Os sem-terra que estão no meio da rodovia são mais atingidos, e recuam em direção à primeira barricada. O major José Maria de Oliveira, de
Parauapebas, decide avançar pelo outro lado, e manda a tropa entrar
atirando.
6. A maioria dos sem-terra busca refúgio na mata e no acampamento
localizado às margens da rodovia. Alguns dos feridos são presos em um
ônibus da polícia.
7. Mulheres e crianças, algumas com ferimentos, principalmente nas pernas, buscam refúgio em uma casa à beira da estrada. Acaba o tiroteio.
8. Os feridos são atendidos no hospital de Curionópolis. Os 19 mortos são transportados para o Instituto Médico Legal da cidade e, depois, para o
IML de Marabá.





