Bogotá (AE-AP) - Por quase uma década eles julgaram os criminosos mais perigosos e, para evitar represálias, o fizeram com o rosto coberto. Agora, os chamados "juizes sem rosto" estão a ponto de perder o anonimato. Seus rostos e nomes foram mantidos em sigilo desde 1991, quando foi aprovada uma lei para os proteger dos cartéis de drogas e dos assassinos profissionais. Mas esta lei expira no próximo dia 30 de junho e os juizes intuem que muitas das pessoas que eles condenaram saberão imediatamente suas identidades.
"Temos razões para temer", declarou um destes juizes em seu escritório no centro de Bogotá. "Tememos porque aqui não vendemos Bíblias, aqui condenamos o crime organizado". O juiz sabe que sua identidade e a de alguns de seus colegas, apenas a uma porta de distância, poderiam ser reveladas em poucos dias após cair a lei extraordinária que permitiu que eles mantivessem secretos seus rostos e nomes. Escondido no anonimato, esse juiz de 41 anos interrogou criminosos condenados como os irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez Orejuela, chefes do desmantelado cartel de Cali que estão presos e Roberto Escobar, irmão de Pablo Escobar Gaviria, o defunto chefe do desaparecido cartel de Medellín. Agora esse juiz teme não tanto as vinganças destes chefes do narcotráfico, e sim as de assassinos profissionais a serviço do narcotráfico ou de grupos paramilitares aos quais condenou por homicídio e que poderiam agir em troca de qualquer benefício. "São mais perigosos, não têm nada a perder e estão cheios de rancor contra todos", disse sentado atrás de uma mesa já quase sem papéis.
Na parede só há um Cristo de madeira e metal. Sobre uma pequena prateleira de livros há fotos de sua família. É um escritório pequeno e organizado, com um terraço do qual se pode ver as colinas de Bogotá. Não há vidros à prova de balas nem portas blindadas. A ele se chega através de um comprido e estreito corredor mal iluminado, para o qual se abrem muitas portas pequenas de escritórios jurídicos. Nenhuma tem o nome do juiz que a ocupa. Os acusados jamais foram lá nem tampouco seus defensores. Julgamentos inteiros foram feitos através de pedaços de papel que ligavam as partes, sem uma ver a outra nem trocar palavras. Nenhuma sentença leva o nome dos juizes, apenas o selo e a firma da presidência do Tribunal Nacional. Essa separação entre acusado e acusador surgiu com a série de assassinatos ordenados pelos cartéis do narcotráfico contra funcionários judiciais desde o fim dos anos 70. Entre 1979 e 1991 morreram 278 magistrados e juizes. Desde 1991, quando entrou em vigor o anonimato, nenhum juiz sem rosto foi assassinado, assegura o fiscal geral Alfonso Gómez. No entanto, explica, o sistema de reserva foi concebido como temporal e extraordinário. Assim, agrega o fiscal, em um debate legislativo de 1996 se estipulou como data final o dia 30 de junho de 1999.
No Congresso se debate agora um projeto para substituir este sistema. Ele prevê que cerca de 3 mil processos ainda não decididos passem a novos juizados penais e que os 57 juizes sem rosto do país, espalhados entre Bogotá e outras quatro cidades, sejam absorvidos pela justiça ordinária, segundo explica Gustavo Cuello, presidente de uma das duas salas do Conselho Superior da Judicatura. Os expedientes com sentenças dessa justiça sem rosto estão sendo levados à sede do Conselho, onde manterão o sigilo em envelopes selados. Cuello assegura que serão mantidas medidas de segurança e que apesar dos temores nenhum juiz secreto renunciou.
O juiz sem rosto de 41 anos confia no cumprimento destas promessas de segurança e trabalho. "Não podem nos abandonar agora", disse com o semblante sério. Ele explicou que levou quase uma década trabalhando em julgamentos de matanças, atentados ou enriquecimento ilícito. Por este último e diante do escândalo da entrada em 1994 de fundos do cartel de Cali na campanha eleitoral do agora ex-presidente Ernesto Samper foi que o juiz interrogou quatro vezes Miguel Rodríguez. O risco de tais interrogatórios foi algo que ele aceitou junto com seu primeiro colete à prova de balas em 13 de março de 1988, quando começou a trabalhar como advogado assessor na chamada "justiça de ordem pública", dedicada aos casos de terrorismo. Ele aceitou apesar do perigo, disse, porque o medo nunca foi suficiente para fazê-lo renunciar e porque ele gostava dos casos. Ele assegura que depois da morte de Escobar Gaviria em dezembro de 1993 a violência contra os trabalhadores judiciais diminuiu. Eram tempos em que ele andava com 18 escoltas. Naqueles dias o juiz recebeu ameaças telefônicas, mas teve sorte e nunca se viu no meio de um tiroteio. Recordando aqueles tempos, este juiz - que ainda anda em carro blindado com uma escolta - muda sua rota diariamente do tribunal para sua casa, da qual sai só para trabalhar. No entanto ele admite que não usa mais o colete à prova de balas: ficou pequeno. "Eu ganhei peso, levo uma vida muito sedentária", disse. Ele não se lembra de sua última ida a um cinema ou a um bar. Ele escapa de vez em quando para assistir a um jogo de futebol com seu filho. "Tomara que o estado se lembre do esforço que realizamos", disse em voz baixa enquanto se despedia na porta de seu escritório. "Tomara que se lembrem de nosso esforço antes que nos aconteça algo, porque depois os lamentos não servirão de nada".

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