Ortigueira - O proprietário da Fazenda Santa Maria em Ortigueira (113 km ao sul de Apucarana), Milton Vargas Prudêncio, terá que comprovar a posse da área, antes do julgamento do pedido de reintegração de posse. A decisão é do juiz Rodrigo Morillos que marcou uma audiência de justificação de posse para amanhã. A fazenda foi invadida no último sábado, pelo mesmo grupo de cerca de 400 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que ocupou por 15 dias a Fazenda Vale do Sol.
Ontem, um dos coordenadores locais do MST, que não quer ter o nome identificado por temer represália, afirmou que pode haver confronto se a reintegração de posse for concedida. ''Espero que o juiz tenha bom senso de não conceder reintegração para uma área que serviu para o tráfico'', disse. Ele se refere ao fato de que em março de 1999 a Polícia Federal fez a apreensão no local de um avião e de um lote de 300 quilos de cocaína, fato que também acarretou a prisão do empresário José Antônio Daher, de Londrina.
Na época, o MST fez a primeira invasão da área, em abril, e a desocupação ocorreu alguns dias depois de forma violenta, com o MST fazendo denúncias de tortura. O proprietário atual, que é tio do deputado estadual e líder do PT no Paraná, André Vargas, informou que comprou a fazenda há cerca de três anos. Ontem, Prudêncio disse que ''não entendeu'' a decisão do juiz. ''Justificar a posse não é com documento? Eu comprei, paguei, a matrícula está no meu nome, e o juiz está com toda essa documentação. Não sei porquê isso agora'', disse.
O coordenador local do MST acredita que não houve quebra no acordo com o governo estadual para que o movimento não invadisse mais áreas. ''Eles iriam para onde depois de sair da outra fazenda (Vale do Sol)? Ali na Santa Maria há um longo histórico de tráfico e de tortura confirmada. A secretaria de Segurança Pública e o governo sabem disso, não foi quebrado o acordo'', considerou.
Ele confirmou a informação de que alguns dos integrantes que invadiram a Fazenda Santa Maria têm casa e emprego na cidade. ''Algumas pessoas até podem ter casinha em Ortigueira, mas vivem do quê? Quem vai dar emprego numa cidade pobre? Um funcionário público, por exemplo, que ganha R$ 240 por mês, sobrevive como com sua família?'', argumentou, ressaltando que não há funcionários públicos na invasão, e que só utilizou o fato como exemplo.
Ele também confirmou que não há controle dos que ingressam no movimento, e que os acampamentos poderiam servir como esconderijo de ladrões. ''A gente não discrimina ninguém e não fica perguntando se a pessoa tem passagem na polícia. Mas, se a gente descobre, tenta reverter a situação da pessoa e também há infiltrações a mando dos latifundiários'', afirmou.
A fonte do MST não confirmou a matança de animais na Fazenda Vale do Sol, ocupada por eles. Segundo o proprietário da área, Kamal El Kadri, foram mortos cerca de 180 vacas, além de carneiros, gansos e galinhas. Ontem, a reportagem da Folha esteve no local e constatou a morte de algumas vacas. ''Esses animais eu não vi e não posso falar a respeito. Matar animais nas fazendas nunca foi prática do MST'', disse a fonte.

mockup