Juiz acusado de matar esposa será interrogado amanhã
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sábado, 27 de fevereiro de 1999
por Thélio Magalhães 
São Paulo, 28 (AE) - O juiz da comarca de Jacareí, Marco Antônio Tavares, acusado de matar a própria esposa Marlene Aparecida de Moraes Tavares, será finalmente interrogado amanhã, às 10 horas, no Tribunal de Justiça, pelo desembargador Gentil Leite.
Marlene foi morta a tiros num matagal no quilômetro 14 da Rodovia Taubaté-Campos de Jordão, na noite de 22 de agosto de 97.
É a primeira audiência no processo, que esteve paralisada durante meses por força de liminar concedida e posteriormente cassada pelo Supremo Tribunal Federal. Marco Antônio alega que o cadáver encontrado não é de sua esposa. Insiste que Marlene está viva. Abandonou a família e os dois filhos menores para se esconder, a fim de incriminá-lo.
O juiz acusado impetrou habeas-corpus que o Supremo mandou redistribuir ao Superior Tribunal de Justiça, no qual pleiteia que o cadáver seja submetido ao exame de DNA, para cabal identificação.
Marco Antônio é o primeiro juiz na história do Judiciário brasileiro, denunciado por homicídio qualificado, crime considerado hediondo e cuja pena vai de 12 a 30 anos.
O procurador de Justiça, Oscar Mellin Filho, que denunciou Marco Antônio a 8 de janeiro do ano passado, afirma que este premeditou o crime. O casal estava em processo de separação. Duas testemunhas viram quando Marcos e Marlene saíram juntos de Campos de Jordão, onde Marlene cursava o 3º ano de Direito na Univap. O casal utilizou um Corsa de Marlene, indo o juiz ao volante. O encontro deveu-se ao fato de Marco Antônio acenar com possibilidade de reconciliação.
Em local ermo e escuro Marco Antônio estacionou o carro. Vestindo luvas, sacou um revólver calibre 38. Marlene desceu do carro e correu.
Recebeu o primeiro tiro pelas costas na altura do joelho. Caída foi arrastada pelos pés até o interior do matagal, onde recebeu o tiro mortal no peito.
"Demonstrando frieza e extrema insensibilidade moral" - diz a denúncia -, Marco Antônio raspou as digitais da vítima. Para simular latrocínio, tirou alguns pertences pessoais da vítima. Trouxe o carro de volta a São José dos Campos e abandonou-o na Rua Santa Clara. No dia seguinte, Marco Antônio disse ao filho Hector, de 5 anos, que "mamãe está no céu, junto com o vovô". A acusação ressalta que a crise conjugal vinha se arrastando desde o início de 97, entremeada de brigas e registros de ocorrências policiais. Temerosa das atitudes do marido, Marlene chegou a escrever a uma freira, no dia 1º de agosto: "...meu coração está aflitíssimo... tantas orações e ele voltou com o diabo no corpo... para acabar com minha vida e de meus filhos".
Todo o drama familiar vivido por Marlene, no decorrer de 1997, foi compartilhado por Morgana DAddea, sua amiga íntima e colega de faculdade. Marlene confidenciara a ela por diversas vezes, ainda amar o marido e querer reconciliar-se com ele.
Ocorre que o juiz Marco Antônio - provisoriamente afastado de suas funções pelo Tribunal de Justiça - já há algum tempo vinha mantendo relacionamento com outra mulher, a advogada Jane Maria Franco Cardoso, de Jacareí. Efetuou a ela, somente no mês de julho mais de 60 ligações telefônicas, de sua linha celular, em horários diversos, de manhã e à noite. No dia dos Namorados, 12 de julho, conversaram demoradamente ao telefone, conforme extratos da Telesp juntados ao processo. Após o crime, esses contatos cessaram quase por completo. O marido de Jane, suspeitando da infidelidade da esposa, descobriu que ela o traía com o indiciado.
Já decidido a matar a esposa, Marco Antônio, em meados de julho, deixou o lar. Mudou-se para um apartamento no condomínio Parque das Flores, em Jacareí, onde começou a planejar a melhor maneira de matar a esposa.
A defesa pleiteou que fosse riscado da acusação o termo "matado a vítima". Entretanto, o desembargador Gentil Leite, relator do processo, indeferiu a pretensão, acentuando que a expressão "se coaduna com a imputação da denúncia".


