Judiciário e Imprensa: uma parceria/ possível (e necessária!)
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de junho de 2001
Dulcinéia Tridapalli 
Não é recente a certa aversão que o Poder Judiciário nutre pela famigerada imprensa, nem é de pouco tempo a antipatia que a mídia tem pela sisudez judiciária (para dizermos o mínimo...). Nas redações dos jornais, TVs ou rádios é geral o pânico que toma conta do jornalista escalado para entrevistar um juiz, uma promotora ou um advogado. Afinal, o juridiquês é linguagem de difícil tradução, cujos interlocutores nem sempre estão dispostos a explicações mais didáticas. Ou então, em nome dos argumentos curingas de sigilo fiscal, bancário, telefônico, deixam o pobre jornalista a ver navios em sua avidez por informações ...
Por outro lado, quando o assessor de imprensa - aquela figura especialista em generalidades (ou seja, sabe um pouco de muito e muito de pouco) - interfona para o magistrado ou para a promotora, informando que há um jornalista na linha e que deseja marcar entrevista sobre tal decisão judicial, quase se consegue sentir tremer a mão do juiz, perceber seu coração bater ligeiramente mais rápido e, entre discretos gaguejos, a busca de razões para refutar o contato. Afinal, o jornalistês tende a simplificar tudo, truncar informações, entender tudo às avessas, melhor não haver manifestação - o juiz se manifesta nos autos, que são públicos e estão à disposição apenas e tão-somente na Secretaria (mas lá na Secretaria, do outro lado do corredor, longe de meu gabinete, pensaria...).
Note-se bem, contudo, que não há nenhuma má fé ou má vontade de ambos os lados - nem do Judiciário nem da imprensa no trato com as informações. Não existe, pelo menos do jornalista sério e profissional, motivo para distorcer dados, utilizar termos incorretos ou creditar ações ou atos a agentes estranhos àqueles que se dispôs (ou se obrigou...) a entrevistar. Mesmo porque sabe que o descrédito se abateria sobre sua reputação profissional, o entrevistado poderia dificultar outro contato, etc. E este etc inclui o medo mórbido de ser processado pelo juiz (se eu falar ou escrever qualquer coisa errada pode haver consequências desastrosas, vou responder judicialmente perante outro juiz !! pensaria...). Há de se registrar a visão estereotipada, quase mítica, que o jornalista - e de resto toda a sociedade - tem do juiz em seu quotidiano: imaginam-no sentado naquelas cadeiras de espaldar gigantesco, sobre uma plataforma, trajado com as ditas vestes talares (aquela toga preta), de martelinho em punho, vociferando contra réus encolhidos em seu pavor diante da Corte Suprema (e se duvidar muitos ainda imaginam a peruquinha de cachinhos brancos a la corte francesa ou inglesa). A figura do jornalista para o juiz, por sua vez, remete a um Clark Kent tupiniquim, munido de gravadores indiscretos e câmeras invasivas, sempre disposto a acentuar um detalhe em detrimento da essência de suas declarações, querendo transformá-lo em manchete de jornal. A realidade, entretanto, está bem distante desta imagem que Hollywood plantou em nossos conceitos. O operador do Direito, de sua parte, teme uma palavra mal colocada, uma tentativa infeliz de tradução do fumus boni iuris, do periculum in mora, da decisão em interdito proibitório, enfim, teme o abalo em sua reputação (da mesma forma!), já que uma expressão mal explicada poderia gerar críticas inveteradas da sociedade e dos próprios colegas de profissão. Ambos, Judiciário e Imprensa, julgam melhor evitar este diálogo difícil, este murro em ponta de faca que é a notícia sobre decisão judicial. Este isolamento, porém, em medos e desconfianças, tende a gerar algo não salutar para o cidadão, que ainda trava luta heróica para conquistar amplamente a democracia e seus instrumentos de cidadania.
Apesar das diferenças de formação curricular e acadêmica de ambos os profissionais, e aí o parêntesis é inevitável, pois se observa a confirmação, pelo menos parcial, dos estereótipos: o estudante riponga de jornalismo, com seu jeans desbotado e seu tênis lave-me, por favor, contestador a toda e qualquer forma de lei institucionalizada, e o certinho do curso de Direito, engravatado desde o primeiro dia de aula, impassível diante da dor muscular em carregar pelo menos três códigos debaixo do braço todos os dias, mesmo que não os utilize nas aulas... Apesar destas diferenças, para ficarmos apenas no campo do caricato, sem adentrar nas discrepâncias curriculares e dessemelhanças filosóficas (porque cada profissão tem sua natureza e dinâmica próprias), pode-se perceber pontos de contato e afinidade entre ambas. Afinal, juiz e jornalista, são preparados para ouvir pessoas, ler, pensar e escrever sobre o que ouviram e leram ... parece que temos aí pontos suficientes de convergência, que permitam, pelo menos, um diálogo mais aberto e menos desconfiado. Ambos precisam dar respostas de seus atos à sociedade, são cobrados pela rapidez de informações e decisões, são, enfim, instrumentos de cidadania e democracia. Parece-nos, nesta superficial reflexão, que não há mais espaço para um diálogo de surdos, já que o cidadão exige de nós explicações e clarividência. Parece que Mc Luhan e Kelsen podem conversar, que Bobbio e Althusser podem tomar uma cerveja gelada sem perder a isenção e o comprometimento com a verdade, com o fato, com a consciência do bem julgar e distribuir justiça; do bem redigir e bem informar.
* Dulcinéia Tridapalli é jornalista e supervisora da Seção de Comunicação Social da Justiça Federal - Seção Judiciária do Paraná


