Juazeiro do Norte tem último dia de romaria
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domingo, 31 de outubro de 1999
Por Angela Lacerda 
Recife, 01 (AE) - Localizado no sertão do Cariri, no Ceará, com uma população de aproximadamente 280 mil habitantes, Juazeiro do Norte está superlotado desde a sexta-feira, quando começou a romaria ao túmulo do padre Cícero Romão. Desta vez, o ato religioso, que teve início há 110 anos, atraiu em torno de 300 mil pessoas, de acordo com a Igreja local. São fiéis e pequenos comerciantes, que começam a deixar a cidade amanhã, último dia da romaria.
Os romeiros chegaram à cidade em caminhões, ônibus e paus-de-arara, vindos de todo o interior nordestino, e se revezam em procissões, em intermináveis filas nos confessionários das igrejas locais e em visitas à sepultura, à casa e à estátua do "padim Ciço", considerado santo milagreiro pelo povo sertanejo. Na avaliação do padre Murilo de Sá Barreto, organizador da romaria, o número de visitantes dobrou neste ano. O fato se deve, ao seu ver, por ser a última romaria do século e também à crise agravada por dois anos seguidos de seca.
Com o intuito de agradecer bênçãos concedidas, pagar promessas ou fazer preces, os penitentes acendem velas, queimam fogos, carregam pedras nas cabeças, vestem mortalhas ou vestidos de noiva, entregam ex-votos de madeira ou cera reproduzindo partes do corpo que foram curadas de alguma doença.
Além de visitar a sepultura padre Cícero - que morreu em 20 de julho de 1934 - na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no cemitério local, os romeiros passam normalmente um dia inteiro na Chapada do Horto, onde, há 30 anos, foi inaugurada uma grande estátua do religioso e que hoje conta com um museu dedicado à sua memória.
Amanhã a programação começa às 5 horas, com uma concentração na Praça da Matriz. Ali serão realizadas missas até o meio-dia, quando ocorre a "despedida do romeiro". Este costuma ser um dos momentos mais tocantes de toda a romaria, de acordo com o padre Murilo. Sob um sol a pino, milhares de devotos, com seus chapéus de palha, despedem-se cantando e chorando.
O padre Cícero fixou residência em Juazeiro do Norte em 1872. Em 1889, a beata Maria Araújo, que participava de uma missa, não pôde engolir a hóstia porque esta havia se transformado em sangue. O povo acreditou num milagre, muitos num embuste.
A polêmica nunca foi resolvida, mas, desde então, o povo passou a ir à cidade, em romaria. Esta mesma história em torno do suposto milagre foi revivida pelos fiéis no domingo, quando, depois da celebração de uma missa noturna na Praça da Matriz, assistiram ao filme "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira, com o ator José Dumont interpretendo o religioso.


