Jovens votam por mudanças no Irã
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Christopher Dickey 
Teerã, 23 (AE-NEWSWEEK) - Os iranianos, principalmente os jovens, votaram a favor de mudanças na semana passada. Numa seção eleitoral reservada às mulheres no sul de Teerã, bairro de classe operária, Mitra Allaverdi escolheu "caras novas" para o Parlamento do Irã. "Acho que todos os homens eleitos antes não fizeram boas coisas para nós", disse Mitra, de 18 anos.
No centro da capital, perto da antiga embaixada dos Estados Unidos (ainda chamada "ninho de espiões"), o estudante de pós-graduação Ramazan Ali disse com orgulho: "Estou moldando meu futuro com as próprias mãos."
No outro extremo da cidade, na mesquita Jalili, Somaya Arabi, de 19 anos, disse: "Se Deus quiser, estas eleições vão impedir que o país continue sendo arruinado. Tomara que os políticos cumpram suas promessas."
No Irã e em muitos outros países persiste uma enorme dúvida. Os mulás ultraconservadores que dominaram a revolução islâmica não serão derrubados facilmente. Sob a liderança do aiatolá Ali Khamenei, oficialmente o "Líder Supremo", eles podem não ter o número de simpatizantes que já tiveram na população, mas ainda têm as armas, os tribunais e a polícia secreta. O risco de violência de caos paira sob a aparência política.
Conforme o governo de Washington sabe, a estabilidade de todo o Oriente Médio depende da estabilidade do Irã. As esperanças do presidente Bill Clinton de uma nova "parceria construtiva" com Teerã, expressas na semana passada, só podem concretizar-se caso o espírito demonstrado nas urnas se torne a política do governo.
Nenhum político, nem os que no Irã pensam ter recebido sua autoridade de Deus, devem ter deixado de perceber a discreta emoção das pessoas reunidas à volta das urnas sexta-feira passada. Elas depositaram fé na democracia. Pelo menos 30 milhões votaram, mais de 75% do eleitorado. Fontes do governo declararam à Newsweek que as tendências apontam uma vitória retumbante da coalizão que apóia o presidente Mohammed Khatami.
Desde que ele assumiu o cargo em 23 de maio de 1997 data que todo iraniano lembra , Khatami prometeu uma "sociedade civil" com mais liberdade, justiça mais transparente e tolerância maior que a conhecida pelo Irã nos últimos 20 anos talvez em qualquer época.
Uma revolução está claramente à mão, mas nenhuma revolução se pareceu tanto com um piquenique. A votação foi secreta quando a pessoa queria que assim fosse, mas poucos eleitores pareceram se importar. Não havia cabinas ou cortinas, e famílias inteiras participaram ao mesmo tempo.
Escolares ajudaram as avós a preencher as cédulas complicadas. Até garotinhos fingiram escrever nomes em listas. Com direito a voto aos 16 anos, os adolescentes compareceram em massa. "Os jovens deveriam ter mais liberdade", disse Morteza Abedi, alfaiate de 18 anos que sustenta a família num bairro operário. Num país com desemprego superior a 35%, "os jovens precisam ter meios de arranjar colocações", disse Abedi.
Mas, queira a população iraniana o que quiser, nenhuma de suas liberdades civis está garantida. Seu futuro é uma incógnita. Enquanto Khamenei e Khatami medem forças, o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani tenta manobrar entre ambos. Conservadores esperam que ele interrompa as reformas; alguns partidários de Khatami esperam que ele consiga consolidá-las. O mais provável é que Rafsanjani procure esvaziá-las. Sabe que, embora muitos iranianos anseiem por mudanças, também receiam que elas cheguem muito depressa e, como um motor superaquecido, o país acabe explodindo.
Ninguém que tenha vivido nos anos de sofrimento e conflito que se seguiu à queda do xá quer voltar àquele tipo de sublevação violenta. "Temos uma democracia controlada", disse Mohammad Atrianfar, editor do diário mais popular de Teerã, "Hamshari".
É um sistema de regime clerical em que o Líder Supremo, um aiatolá, é chefe de Estado; um sistema de imposições sem nada em contrário. Há um presidente e um Parlamento. Mas comissões dominadas pelos mulás dão a última palavra em matéria de legislação e eleições. E, para o caso de alguém ter esquecido esse recado, centenas de candidatos, muitos deles reformistas, foram proibidos de concorrer às eleições. Outros foram levados a um tribunal e condenados à prisão com base em acusações forjadas.
Para dar aos iranianos o tipo de liberdades civis a favor das quais eles pensam ter votado, todo o sistema precisaria mudar. E até falar de tais medidas implica o risco de violentas represálias. "O movimento iniciado em 23 de maio de 1997 é uma epopéia", disse Atrianfar. "Tem um herói (presidente Khatami) que representa tudo o que é bom. Ele vence batalhas. Mas você está lembrado que em sua maioria os épicos acabam em tragédia. Que podemos fazer para que esta epopéia não termine em tragédia?"
Eis a questão. Nem todos acreditam que a tragédia seja inevitável. Os reformistas do Irã, como da maioria de outros países, têm grandes ambições, mas procuram alcançá-las lenta e cuidadosamente, atuando dentro do sistema. "Não achamos que o Parlamento vá resolver todos os problemas numa só noite", disse Mohammed-Reza Khatami, irmão mais moço do presidente e líder da legenda Frente Islâmica de Participação do Irã.
Seu partido recebeu grande apoio nas urnas e vai provavelmente liderar a maioria. "Eis a diferença entre reforma e revolução. Se o Parlamento fizer com que avancemos alguns passos, ficaremos satisfeitos." Khatami e outros reformistas no Parlamento pretendem insistir para que haja até maior liberdade de expressão, política que os favoreceu os três últimos anos. Agora eles querem liberar não só revistas e jornais, como também a televisão e o rádio. Também querem emendar as leis eleitorais, que atualmente limitam a campanha oficial a uma semana e desencorajam a existência de partidos políticos. "Pensamos que, se quisermos instituir a democracia, precisamos de instituições independentes, como partidos e sindicatos", disse Mohammed-Reza Khatami.
Os reformistas também têm um programa de política exterior. O presidente Khatami adotou políticas visando à coexistência pacífica com o Ocidente; seu irmão pensa que o novo Parlamento deve apoiá-las. Isto inclui relações com os EUA? "Mesmo que não reatemos relações diplomáticas, podemos reduzir a animosidade", disse Mohammed-Reza Khatami. "Claro que isto faz parte do processo da retomada das relações."
Seu irmão promoveu muitos dos intercâmbios culturais com os EUA nos últimos dois anos que melhoraram levemente as relações entre os dois países; praticantes de luta livre, cineastas e jogadores de futebol americano vão e vêm. O Irã também se interessa pela compra de gêneros agrícolas, produtos farmacêuticos e equipamento médico dos EUA. "Preparamos o terreno para o investimento na indústria petrolífera", disse Mohammed-Reza khatami terreno aliás importante num país em que o petróleo corresponde a mais de 85% das exportações. "Mas pensamos que o problema não são os EUA."
De fato, um problema maior talvez seja o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Quando falam dele, reformistas como o irmão do presidente medem muito bem as palavras. "A pessoa que toma a decisão final é o Líder Supremo", declarou Mohammed-Reza Khatami à Newsweek. "Claro que sua alteza vai levar em conta a opinião pública e o que as pessoas pensam."
Muitos no Irã duvidam. Pensam que os Khatamis e os que votaram neles são ingênuos. "O povo iraniano está tomando decisões emocionais", disse o engenheiro civil Behrouz Zafaris, de 30 anos, ao votar na semana passada. "E é uma pena, pois estamos atravessando um período conturbado."
Um dos mais respeitados ativistas políticos do Irã, Ezatollah Sahabi, é mais direto: "O presidente Khatami não é na verdade uma potência. Tem dignidade e também é popular. Mas não tem os instrumentos para fazer o que pretende."
Antes das eleições, até alguns mais estreitos partidários do presidente Khatami falavam abertamente de sua frustração com ele. O popular ex-prefeito de Teerã, Gholamhussein Karbaschi, fora julgado, condenado e afinal encarcerado, sob a acusação de ser corrupto. Depois o ministro do Interior de Khatami, Abdullah Nouri, sofreu impeachment do Parlamento conservador, foi levado a julgamento por delitos políticos e condenado a três anos de prisão. Khatami pareceu incapaz de e possivelmente não se interessou em proteger seu pessoal. "Ele é tímido por natureza e não quis entrar nesse negócio", disse Karbaschi.
Naturalmente Khatami não queria ser provocado. Com a maior parte dos instrumentos do governo em poder de seus adversários políticos, ele é um presidente forçado a travar uma perigosa campanha de resistência passiva. Mas Khatami tampouco é um fraco. Filho e neto de influentes aiatolás, ele foi por longo tempo protegido de Khomeini. Quando é encurralado, sabe agir. Um veterano político de oposição, Ibrahim Yazdi, disse: "Ele conhece a arte das negociações de bastidores."
No último ano, o presidente trava dura luta pelo império da lei. Seu formidável adversário: o temível Ministério de Informações. Em novembro e dezembro de 1998, quatro intelectuais foram mortos em Teerã. Khatami não reagiu prontamente e o pânico se propagou entre escritores e artistas que haviam apoiado o novo presidente. Eles sabiam que, na República Islâmica, nacionalistas leigos e intelectuais de esquerda podiam ser considerados infiéis cujo assassinato talvez nem fosse considerado crime. "Não pertencemos ao sistema", disse o romancista Houshang Golshiri. "Quando eles querem atacar alguém
sempre nos atacam." Mas Khatami viu os homicídios como um agressão direta a tudo o que ele representava. "Matar os intelectuais foi como declarar guerra ao governo Khatami", disse seu irmão.
O pessoal de Khatami também tinha lá seus recursos. Entre os partidários do presidente figuram vários tarimbados veteranos em trabalho de espionagem. Saeed Hajarian, que muita gente considera a eminência parda da Frente de Participação, foi um dos fundadores do serviço de informações da revolução islâmica. Ali-Akbar Mohtashami-pour, um dos candidatos da Frente de Participação ao Parlamento, planejou as operações iranianas no Líbano durante a década de 80, quando o Hezbollah começou a atacar forças americanas ali.
Mohammed-Reza Khatami não forneceu detalhes, mas disse que "algumas pessoas no Ministério de Informações descobriram quem estava matando os intelectuais". O presidente Khatami mandou que os assassinos fossem presos e forçou a renúncia do Ministro de Informações, Dori Najaf Abadi, que fora nomeado pelo Líder Supremo. O episódio tornou-se uma das piores crises com que Khatami se defrontou, revelando as rachas entre reformistas e conservadores. O chefe confesso dos assassinos era um engenheiro aeronáutico que estudara nos EUA um veterano oficial de espionagem, chamado Saeed Emami. Detido em 25 de janeiro do ano passado, informa-se que ele se suicidou na prisão tomando uma garrafa do depilador que os reclusos sempre recebem nas cadeias iranianas.
A seguir, um dos importantes jornais de Teerã pró-Khatami, o "Salaam", publicou um memorando que Emami havia escrito poucas semanas antes do assassinato dos intelectuais. A mensagem pedia maior restrições à imprensa. Era isso o que muitos seguidores do Líder Supremo faziam na época: deixavam implícito que os inimigos da imprensa não se deteriam diante de nada.
Exatamente. O editor do "Salaam", mulá Mohammed Mussavei Khoeiniha, fora líder dos estudantes que haviam tomado diplomatas como reféns no "ninho de espiões", a embaixada dos EUA, em 1979. Suas "credenciais revolucionárias" eram impecáveis. Mas ele foi levado a julgamento pelo Tribunal Especial para Clérigos, controlado por Khamenei, que o acusou de publicar documentos sigilosos. O jornal foi fechado. Estudantes revoltados fizeram um protesto passivo contra o fechamento do "Salaam". A polícia revidou na hora, invadindo dormitórios e, com valentões armados, agrediu os estudantes e saqueou os alojamentos.
Aquilo foi demais. De repente, Teerã explodiu. Carros ardiam em chamas. Protestos ecoavam pelas ruas: "Valentões cometem os crimes e o líder os apóia." Tiros ecoavam e sirenes tocavam nas avenidas centrais. Durante várias horas a cidade pareceu à beira do caos. Khamenei e Khatami articularam a restauração da calma, mas aquela foi só uma trégua temporária. Foi, para todas as partes, a lição de que elas estavam à beira do extremo limite.


