Jovens brasileiros estão se alistando no Exército boliviano para garantir o acesso dos pais a documentos e um pedaço de terra. São os chamados ‘‘brasivianos’’, excluídos da reforma agrária que a Bolívia faz na fronteira com o Acre apesar de viverem há mais de trinta anos na região.
Nos últimos anos, mais de três mil brasileiros que trabalhavam nos seringais e castanhais bolivianos retornaram aos municípios acreanos de Brasiléia, Capixaba, Assis Brasil e Xapuri, pressionados pelo avanço das madeireiras estrangeiras - que dão emprego preferencialmente aos cidadãos bolivianos - e pelos projetos de assentamentos rurais. Cinco grandes serrarias estão trabalhando na divisa.
Cerca de 50 brasivianos estão sendo cadastrados em caráter de emergência pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para morar na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, em Brasiléia. O processo é demorado e até hoje apenas três famílias estavam prontas para se mudar para a Resex.
Uma das famílias estava em tal situação de miséria que a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Acre (Fetacre) fez um empréstimo de R$ 600 para que comprasse comida, roupa e ferramentas de trabalho.
O alistamento para facilitar a obtenção de cidadania foi idéia do governador do Departamento do Pando, Roger Pinto, descendente de acreanos, conhecido como ‘‘Chonta’’. Em reunião com o deputado estadual Ronald Polanco (PT), Chonta disse que a Bolívia deve facilitar a vida dos brasivianos. Polanco é boliviano e filho de brasileiros. Ele apresentou na Assembléia Legislativa projeto de lei que obriga a destinação de 10% dos novos assentamentos para os que não conseguirem fixar-se na Bolívia.
O alistamento e a naturalização dos brasivianos não são aceitos pelas organizações ligadas à questão agrária. ‘‘Aqui tem terra para todas aquelas famílias’’, afirmou o presidente da Fetacre, João de Deus, que na semana passada organizou seminário para debater o assunto.
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) anunciou que irá implantar pólos agroflorestais para abrigar essas famílias mas não informou data. Projeto indêntico deverá ser elaborado pelo governo do Estado, que pensa em criar um instituto de terras para resolver as questões de limites territoriais do Acre. ‘‘Mas essa é uma solução de longo prazo. O governo instituiu uma comissão para encontrar um caminho mais rápido’’, disse Mário Jorge Fadel, diretor da Secretaria-Executiva de Florestas e Extrativismo (Sefe).
Uma dessas soluções seria acelerar a instalação de duas usinas de beneficiamento de borracha e castanha em Brasiléia e Xapuri. Autalmente 95% da produção sai para a Bolívia e o Pará, o que, segundo a Sefe, contribui para complicar a vida dos fronteiriços. Parte dos brasivianos vive como no tempo do escambo, trocando serviço pesado por comida.

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