Tabebuias é um tipo de árvore que nasce da lama, mas capaz de dar flores maravilhosas. Assim pode ser comparado o processo de recuperação de um drogado, que depois de chegar ao ‘‘fundo do poço’’, reavalia suas atitudes e decide mudar de vida. Esse é o tema do livro ‘‘Tabebuias – Histórias reais daqueles que se livraram das drogas na Fazenda da Esperança’’, de Christiane Suplicy Teixeira, que está sendo lançado pela Editora Cidade Nova aproveitando o tema da Campanha da Fraternidade 2001, que será lançada hoje em todo o Brasil com o lema ‘‘Vida sim, drogas não!’’. A publicação, distribuída pela Vozes e Loyola, encontra-se na 4ª edição, com nove mil exemplares vendidos.
O romance-ficção traz histórias de jovens que passaram por um período de recuperação na Fazenda da Esperança, fundada pelo frei Hans Stapel, em Guaratinguetá (SP). Hoje já são 16 fazendas espalhadas pelo Brasil, duas em Berlim, além de uma que será inaugurada em Moscou em breve.
‘‘Entrevistei vários voluntários e recuperandos na Fazenda, até que recebi uma caixa, pesando uns 8 quilos, com cartas de jovens contando suas experiências. Li 80% do material e selecionei os casos e as histórias mais interessantes. É uma reportagem em forma de romance’’, explica Christiane, revisora e tradutora.
Quando chegam na fazenda, os jovens passam por um ano de internação, sem contato com família e com a sociedade. ‘‘Todos trabalham e ninguém fica ocioso. Outro fato interessante é que muitos que se curam continuam lá e se tornam coordenadores voluntários, ou então prestam algum tipo de ajuda, mesmo que seja só no final de semana’’, conta. ‘‘Eles não se apegam à religião, mas sim, no amor ao próximo, que existe em qualquer crença.’’
A internação na Fazenda da Esperança é gratuita e a instituição se mantém através de doações e dos trabalhos realizados pelos internos. ‘‘Eles partem do princípio que, se o pai paga, o jovem não está sendo responsável pela própria vida. Todos pagam a internação com o próprio trabalho. É uma forma ética de devolver a dignidade para o cidadão.’’
Um dos depoimentos que mais impressionaram Christiane foi o de um jovem que já tinha matado 9 pessoas. ‘‘Ele era uma das pessoas mais doces que conheci. Ele conseguiu sair do mundo das drogas porque percebeu que era útil para o próximo. É esse estilo de vida que muda o pensamento desses jovens: de amar o outro incondicionalmente fazendo com que ele perceba que tem um lado bom e só precisa desenvolvê-lo.’’
Christiane cita ainda casos como o de João, um menino que aos 14 anos foi parar no SOS Criança depois de participar de um assalto à mão armada. ‘‘Ele se revoltou depois que descobriu que era adotado, sua mãe uma prostituta e seu pai desconhecido. Quando foi para a fazenda, não seguia as regras, não trabalhava, até que um dia a coordenação decidiu que ele teria de ir embora, pois estava prejudicando a recuperação dos demais. Foi quando ofereceram para ele uma nova chance lá dentro, trabalhando com aidéticos. Assim que ele percebeu que podia ajudar outros que estavam em situação pior começou sua recuperação. Hoje ele tem 25 anos e está cursando a faculdade de Jornalismo.’’
Há outro caso de um jovem, Eduardo, que chegou na fazenda com 20 anos, depois de sofrer abuso sexual quando criança, enfrentar um pai alcoólatra violento que achou que ele tinha virado homossexual. ‘‘Hoje, quase aos 40 anos, ele está recuperado, casado e com dois filhos. O que me impressionou foi que ele contou toda a sua história na frente da filha de 9 anos. Isso é uma forma de prevenção também’’, analisa a autora.
Depois de conhecer de perto o mundo das drogas, a autora confessa que libertou-se de vários preconceitos e mudou seu modo de pensar. ‘‘Perdi uma amiga de 10 anos naquele episódio do maníaco do cinema do Shopping Morumbi. Para mim, um criminoso merecia a prisão perpétua, mas hoje penso diferente e dou valor para outras coisas, como a importância de ter uma família sólida, não frouxa. Às vezes, penso se toda essa violência não é um pedido de ajuda dessas pessoas, que se drogam porque não aguentam mais sofrer e querem ficar anestesiadas.’’
Antes de entrar na fazenda, o jovem é convidado a escrever uma carta dizendo porque ele deseja ficar internado. Acompanhe um desses depoimentos:
‘‘É com muita ansiedade que lhes escrevo para pedir que me aceitem na Fazenda da Esperança. Sou traficante de cocaína e viciado também, e estou sofrendo com o vício. Sinto uma grande força de vontade de me desintoxicar. Estou desesperado e com muito medo, sonho retomar uma vida normal e sem drogas.
Quero que meus irmãos olhem para mim um dia e tenham orgulho de serem meus irmãos. Olho no espelho e me vejo recuperado. Resolvi pedir ajuda porque não posso fazer tudo isso sozinho. Onde moro não dá para ficar, pois eles me oferecem droga e eu tenho a cabeça fraca e vou no embalo dos outros. Se vocês puderem me ajudar, eu ia agradecer muito do fundo do meu coração.’’

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