Jovens erram no uso da pílula do dia seguinte
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segunda-feira, 25 de outubro de 2004
Gabriela Sandoval<br>Agência Estado 
São Paulo- O alerta vem da coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo, Albertina Duarte Takiuti: jovens estão usando de forma contínua, indevida e indiscriminada a pílula do dia seguinte (PDS), como é conhecido o medicamento de anticoncepção de emergência (A.E.). O crescimento na venda dessas pílulas revela que a constatação de Albertina tem fundamento. Segundo a empresa de consultoria IMS Health do Brasil, foram vendidas no País, em 2000, 550 mil unidades do produto. Este ano, até setembro, esse número aumentou seis vezes, atingindo os 3,4 milhões de comprimidos.
Uma pesquisa feita em 2003 por Albertina, com 136 pacientes de 11 a 20 anos, revela que 28% das jovens com vida sexual ativa já utilizaram a A.E.. Mais de 40% alegaram para o uso a falha de algum método de contracepção e 33% disseram que não utilizavam outro ''método''. A médica confirma que muitos dispensam o uso do preservativo na certeza de que depois da ingestão de dois comprimidos evitarão uma gravidez. É aí que essas meninas se enganam. Embora seja uma alternativa para casos extremos, como estupro ou falha de outro método, a ineficácia da PDS pode chegar, segundo ela, a 15% - e sua dosagem hormonal é dez vezes superior a de um anticoncepcional comum.
A desorientação e alta dosagem de progesterona podem causar, segundo o chefe do Departamento de Ginecologia do Hospital das Clínicas, Marcelo Zugaib, retenção de líquido, pressão alta, náuseas e desequilíbrio hormonal e do ciclo menstrual, entre outros. ''Se a menina toma a pílula uma vez, tem um efeito. Mas por diversas vezes é uma agressão ao organismo'', diz o médico.
Foi o caso da dona de casa F.S., de 19 anos, que iniciou sua vida sexual aos 14, época em que desconhecia métodos de contracepção. Para evitar uma gravidez, ela ingeriu de forma errada uma dosagem hormonal equivalente a mais de uma cartela de anticoncepcional, o que resultou em dores de cabeça, náuseas e hemorragia. ''Tomei durante três dias dois comprimidos juntos. Achava que quanto mais tomasse, melhor seria o efeito'', diz ela, que é mãe de um menino de 3 anos, fruto de uma gravidez de risco e não planejada. Os efeitos colaterais não foram suficientes para que F. desistisse do recurso. Ela usou a pílula do dia seguinte outras vezes e diz que, se precisasse, usaria novamente.
O médico Marcelo Zugaib tem outra preocupação: muitas jovens deixam de usar os métodos anticoncepcionais para tomar a pílula do dia seguinte uma vez por mês, no período de ovulação. ''Elas entram em uma aventura muito arriscada'', alerta. Além das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), que obviamente não são evitadas com o método, outro perigo é desconhecido pela maioria, segundo a bioquímica Josiane Nascimento. De acordo com a pesquisadora da Unicamp, se a pílula for tomada várias vezes, ''o organismo se habitua com a medicação e a eficácia pode ser nula''.
É provável que este tenha sido o caso da estudante K.N., de 20 anos, que apesar da pouca idade já é separada e mãe de duas meninas. Apenas em uma das três vezes que tomou a PDS ela teve relação sexual usando camisinha. K. descobriu na prática que a eficácia do medicamento não é 100%, pois acabou engravidando da filha mais nova, hoje com 3 anos. ''Nas outras vezes, cheguei a ficar até dois meses sem menstruar, por isso não desconfiei'', diz. Quanto ao risco de contrair alguma doença, ela argumenta que confiava no parceiro e que, como ele detestava usar preservativo, nem pensou em camisinha.


