Londres, 25 (AE-REUTERS) - Um adolescente chileno que morreu aos 17 anos torturado por agentes do governo converteu-se
uma década depois, em um figura-chave para o futuro do ex-ditador chileno Augusto Pinochet.
Marcos Quezada Yáñez foi preso no Chile em 24 de junho de 1989, segundo afirmam documentos judiciais britânicos. Poucas horas depois, estava morto, supostamente por descargas elétricas administradas por agentes governamentais.
O caso de Yáñez - que é apenas uma das milhares de vítimas registradas durante os 17 anos de mandato de Pinochet no Chile - poderia ter sido esquecido se não tivesse sido incluído na lista de 32 acusações eleborada pelos advogados espanhóis em sua petição de extradição do general.
A Câmara dos Lordes - o mais alto tribunal britânico - afirmou que o caso de Yáñez é um dos três que poderiam resultar na extradição para a Espanha de Pinochet, que está detido em Londres desde 16 de outubro do ano passado.
Os lordes descartaram a maior parte das acusações restantes por assassinato, tortura e sequestro apresentadas contra Pinochet. Eles argumentaram que esses supostos crimes teriam ocorrido antes de a Grã-Bretanha converter em lei, em dezembro de 1988, uma convenção das Nações Unidas sobre tortura.
Os documentos se referiam a Yáñez como "ela", mas os ativistas pró direitos humanos disseram em Londres que se trata de um homem.
Os ativistas citaram a Comissão Nacional para a Verdade e a Reconciliação do Chile, que assegurou que Yáñez era um ativo militante de um partido político pró-democrático quando foi preso no povoado chileno de Curacautín.
A versão policial da polícia chilena, entretanto, é a de que Yáñez foi preso por sua participação em um roubo e que ele se suicidou em sua cela.
Mas a Comissão da Verdade, que elaborou um informe em 1991 sobre cerca de 2.000 atrocidades cometidas pelas forças de Pinochet, concluiu que o adolescente morreu por "torturas aplicadas por agentes do governo em violação de seus direitos humanos".
Embora os lordes tenham descartado 32 acusações contra Pinochet, Reed Brody, do grupo Human Rights Watch, afirmou que dezenas de acusações de tortura e assassinato posteriores a 1988 poderiam figurar ainda no caso.
E exatamente em resposta à decisão dos lordes, que exige a retroatividade dos crimes, em Santiago, grupos de direitos humanos recolheram hoje em seus arquivos informações sobre torturas cometidas nos últimos anos do regime Pinochet.
"Já contabilizamos 19 casos até agora", disse a advogada Miriam Reyes, da Comissão para a Defesa dos Direitos do Povo (Codepu), uma entidade dedicada a apoiar vítimas do regime militar.

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