Jovem que teve bebê dentro de UPA relata história de superação
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sábado, 11 de maio de 2019
Pedro Marconi - Grupo Folha 
A gravidez envolve muito planejamento e preparação, principalmente na hora do parto. Mas, muitas vezes, o momento da criança vir ao mundo nem sempre respeita toda essa organização. Nesta hora, para a família, o importante é que nasça com saúde. Michele Laiane Marcondes Pereira, 20, sabe bem o que é isso. Na última terça-feira (7), a segunda filha dela, Julia Marcondes Riscalli, nasceu de maneira inesperada e inusitada, dentro da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Centro-Oeste, na zona oeste de Londrina.
O dia que era para ser daqueles rotineiros para a família se tornou um dos mais especiais. Grávida de 38 semanas, a moradora de Jaguapitã (Região Metropolitana de Londrina) entrou em licença-maternidade na segunda-feira (6), do setor de linha de produção de uma indústria de alimentos do município. Apesar de ter completado os nove meses de gestação, a programação junto ao médico era de que esperasse até completar 40 semanas, para que o bebê nascesse de “parto normal”. Caso isso não se concretizasse, a intervenção seria por meio de cesárea.
“Meu marido, Vanderson Riscaldi da Silva, foi a Rolândia extrair um dente e fui de acompanhante. Minha sogra foi conosco, porque tinha consulta, mas com outro especialista. Comecei a me sentir mal, porém achei tudo tranquilo até então. Depois viemos a Londrina, numa loja de ferro, pois meu esposo é soldador, e voltei a sentir dores muito fortes. Tomei remédio, fui ao banheiro e minha sogra percebeu que demorava e foi ver o que estava acontecendo”, recorda.
Os enjoos foram ficando mais intensos, entretanto, a família não imaginava que eram os sinais de que Julia queria nascer. “Meu esposo quis me levar para o hospital, para saber o que poderia ser, contudo conhecemos pouco de Londrina. Foi quando ele viu uma ambulância e começou a segui-la”, conta. “Chegamos no lugar, ele viu que tinha enfermeiros, mas não sabíamos de que se tratava de uma UPA. Meu marido falou o que estava ocorrendo e fui direto para o atendimento.”
CELEBRAÇÃO
Com as fortes contrações, o médico da unidade constatou que Michele Pereira estava com dilatação de nove centímetros e entrando no período de "expulsão" da criança. Ainda se esforçaram para transferir a paciente para a Maternidade Municipal Lucilla Ballalai, mas não houve tempo. “Tentaram chamar o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), no entanto, estava em outra ocorrência e não ia chegar no prazo de me levar. Me colocaram na sala de emergência, apareceram diversas enfermeiras e o médico, 'estourou a bolsa', ele disse que ia fazer de tudo para que a Julia nascesse bem e foi ali mesmo. Não deu tempo nem de tirar o vestido e quase que fiquei de tênis”, brinca. Posteriormente a jovem foi levada para a maternidade.
Apesar de toda a correria e da instituição não ser direcionada para esse tipo de atendimento, por não dispor de estrutura necessária, Julia nasceu com 47 centímetros, 2,9 quilos e com muita saúde, para celebração de todos que participaram do parto. “As pessoas ficaram muito felizes, me trataram bem. Foram pacientes em um momento inesperado. Ainda bem que meu esposo foi atrás da ambulância até a UPA, porque por mim teria ido para casa e ela poderia ter vindo ao mundo dentro do carro”, comemora. “Nem roupa para ela tinha. Minha família correu em casa pegar a mala. Enquanto isso fomos improvisando”, completa. A projeção, antes de todos os fatos, era de que a garota nascesse no hospital em Rolândia.
FUTURO
Mãe de Davi Felipe, de quatro anos, Michele já planeja o futuro da filha com uma certeza: terá muita história para contar à pequena. “Tive um pouco de medo do que poderia acontecer com ela, mas foi tudo tão de repente, chega a ser engraçado. É um momento que vou mostrar para ela para o resto da vida, porque marcou por conta de todo esse contexto”, destaca ela, que teve gravidez marcada por algumas intercorrências. “Filho é bênção. Para mim ser mãe é um privilégio que sou capacitada por Deus”, resume.
'No meio do caos vimos uma flor'
Com cerca de 30 anos dedicados à medicina, Ahmed Ali Geha foi quem conduziu todo o processo de Michele Laiane Marcondes Pereira, desde que ela chegou à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Centro-Oeste até o nascimento de Julia Marcondes Riscalli. Segundo o médico, que é plantonista no local e especialista em ginecologia e obstetrícia, a tranquilidade demonstrada pela mãe fez toda a diferença durante o acolhimento.
“Ela se apresentou muito calma. Expliquei o que estava acontecendo, falei para segurar um pouco, para tentarmos a transferência. A ambulância atendia do outro lado da cidade e ia demorar, foi quando optamos por fazer o parto na UPA. A Michele foi extremamente colaborativa. Temos material de emergência de parto, laqueadura, e foi o que utilizamos. Acabamos montando um berço improvisado aquecido e conforme tudo foi dando certo, a tensão foi sumindo”, diz.
O médico reconhece que todo o parto de uma criança fora do ambiente próprio gera expectativa e ressalta que a emoção contagiou toda a equipe, de auxiliares a enfermeiros. “Boa parte do grupo é formada por mulheres e mães e todas ficaram muito emotivas. Estamos habituados com dor e sofrimento, pois na sala de emergência vão pacientes graves, com infarto, AVC (Acidente Vascular Cerebral), pneumonia, e naquele momento passou a ser positivo. O nascimento é felicidade e o clima mudou”, alegra-se. “Marcou nossa história também, com uma repercussão grande. No meio do caos vimos uma flor”, compara.
Geha ainda frisa a coragem da mãe como um incentivo para o “parto normal”, que é o mais indicado por especialistas por não ter nenhuma ação cirúrgica. “Temos partos tão cheios de 'pompa' e o da Julia foi algo muito natural, legal de ver. A Michele foi sendo mãe plena, com trabalho de parto, tendo o bebê. Nós só auxiliamos num processo natural da vida, que é gratificante. Numa época em que temos altas taxas de cesáreas, ela foi dona de si.” (P.M.)


