Jospin muda governo de olho nas eleições Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 27 (AE) - O governo social-democrata da França optou por uma reciclagem política e econômica a fim de preparar-se para as eleições legislativas e presidenciais de 2002, cujo seu candidato deverá ser o atual primeiro-ministro Lionel Jospin.
É esse o objetivo da reformulação do gabinete francês, que tem agora como ministro da Economia e Finanças Laurent Fabius, ex- primeiro-ministro e atual presidente da Assembléia Nacional. Ele resssurge como o novo "número 2" do governo (o verdadeiro vice- primeiro-ministro). Fabius substituiu Christian Sautter que não resistiu à forte oposição contra a reforma que pretendeu impor à administração fiscal. A oposição conservadora está definindo essa mudança ministerial como uma recuperação do "mitterrandismo" para finalidade exclusivamente eleitoreira.
Desde o Congresso do Partido Socialista em Rennes (há 10 anos), quando a corrente Jospin se impôs por uma margem mínima, Fabius é considerado o principal adversário do atual primeiro-ministro. Ele lidera uma das correntes social-democratas mais importantes e sua nomeação revela o interesse de Jospin em promover a reconciliação e unir o partido, para enfrentar as árduas batalhas dos próximos meses.
Jospin disse que o novo gabinete se inspira nos valores da esquerda e vai continuar perseguindo as reformas necessárias.
Além de Fabius, "filho espiritual" do ex-presidente François Mitterrand, outro mitterrandista histórico volta ao governo: Jack Lang, nomeado ministro da Educação. Desde a ascensão de Jospin, a corrente mais próxima do falecido Mitterrand vinha sendo marginalizada. Segundo analistas, Lang teria sido salvo pelo gongo. Candidato a candidato a prefeito de Paris, ele deveria submeter-se na sexta-feira ao voto (provavelmente desfavorável) dos militantes social-democratas - que parecem inclinados a escolher Bertrand Delanoe.
Lang, um homem do diálogo, substitui na pasta da Educação Claude Allegre, um técnico e cientista amigo pessoal de Jospin, mas que em três anos no poder se incompatibilizou com a maior parte dos professores, técnicos, pesquisadores, etc..
Laurent Fabius, até então crítico da política fiscal e tributária do governo, é definido como "um liberal de esquerda", uma espécie de Tony Blair a la francesa. Ele defende uma diminuição da carga tributária, atualmente 45,7% do PIB , uma das mais elevadas da Europa, para apenas 40% nos próximos cinco anos. Além disso, ele também defende uma redução global do imposto sobre a renda, não apenas das faixas mais baixas, como o governo precedente parecia privilegiar, mas também das mais elevadas (54%).
O nome de Fabius apareceu recentemente como provável candidato à direção-geral do Fundo Monetário Internacional na sucessão de Michel Camdessus, mas o objetivo real não era esse.
Dessa forma, Fabius prossegue sua reabilitação política, após ter sido responsabilizado como primeiro-ministro pelo escândalo do sangue contaminado. Ele exercia as funções de chefe do governo na época, mas foi absolvido pela Justiça. O ex-ministro de Finanças, Michel Sapin, foi nomeado para o Ministério da Função Pública e Catherine Tasca substitui Catherine Trautmann na Cultura, muito desgastada junto ao meio artístico, definida como "uma não ministra".
O exemplo recente das eleições legislativas espanholas e a vitória de Aznar parecem ter levado o primeiro-ministro Jospin a refletir, pois na Espanha a simples união entre socialistas e comunistas não foi suficiente para garantir a vitória da esquerda. Isso talvez tenha contribuído para essa recentragem do novo governo Jospin, saudada pela Bolsa de Valores de Paris, que reagiu favoravelmente à designação de Laurent Fabius com um aumento de 1,36%.
Ainda na semana passada, a maior parte dos países da União Européia, reunidos em Lisboa, optaram por reformas "sociais liberais" preconizadas por Tony Blay. A designação de Laurent Fabius poderá facilitar o dialogo francês com seus parceiros, mesmo mantendo sua especificidade.
O equilíbrio com as outras forças governamentais foi preservado.
Tanto os comunistas como os verdes parecem satisfeitos por terem aumentado sua representação. O deputado comunista Michel Dufour nomeado secretário de Estado do Patrimônio e da Descentralização e o verde Guy Hascoet, para a Secretaria de Estado à Economia Solidária. Para representar o PRG, Partido Radical de Esquerda, Roger Gerard Swartzemberg foi designado ministro da Pesquisa. Finalmente, o senador Jean Louis Melenchon, vai assumir a pasta do Ensino Profissional.





