Paris, 08 (AE) - O primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, foi militante trotskista nos anos 50, integrando a Organização Comunista Internacionalista (OCI), revela o dirigente dessa organização, Jacques Kirsner, em artigo publicado pelo matutino Libération. Esse rumor circulava regularmente nos meios políticos, mas o chefe do governo socialista sempre fez questão de desmentí-lo, nunca assumindo publicamente essa posição. Kirsner não parece cometer nenhum engano, confundindo Jospin com seu irmão, Olivier, também militante dedicado do ramo lambertista (Pierre Boussel Lambert foi o principal incentivador desse partido), defensor das idéias de Leon Trostky, até o fim dos anos 80.
Kirsner, um produtor de cinema conhecido nos meios da extrema esquerda pelo pseudônimo de Charles Berg nas décadas de 60 e 70, não hesita em afirmar no artigo, que assina com seu companheiro François Chesnais, igualmente membro do OCI: "Militamos com Jospin durante muitos anos, dividimos as mesmas convicções revolucionárias, socialistas e democráticas."
A afirmação não tem nenhum caráter de denúncia, mas de informação privilegiada. Os autores do artigo reconhecem "o direito de Jospin de mudar de convicção", mesmo que, em nome da transparência, ele devesse explicar-se, sem negar essa realidade de sua vida política. Afinal, afirmam os dois trotskistas, "muitos outros antigos trotskistas viraram casaca" e hoje participam dos partidos institucionais.
Jospin nunca negou ter mantido contato com essa área política
admitindo mesmo sua simpatia pelos trotskistas no fim da década de 50, quando estudante e militante contra a Guerra da Argélia, mas sempre negou ter aderido à OCI. Nessa época já estava inscrito na União da Esquerda Socialista, um pequeno partido que iria sobreviver até sua fusão com o Partido Socialista Unificado (PSU). Seu ingresso no Partido Socialista, oficialmente, deu-se em 1971, no Congresso de Epinay, ano de sua criação.
Esse percurso, entretanto, tem sido contestado por seus biógrafos Gerard Leclerg e Florence Muracciole, que, apoiando-se em testemunhos de outros militantes da mesma organização comunista internacionalista, afirmam que ele foi membro ativo da organização trotskista até 1971, utilizando o pseudônimo de Michel. Era também conhecido como Frisé (Frisado), em razão de seus cabelos crespos. Outro trotskista conhecido, Boris Fraenkel
encarregado na época de recrutar jovens militantes para a OCI, confirma ter "recrutado e formado" Jospin, no início da década de 60.
Jacques Kirsner, nessa mesma época, era o responsável pelos chamados "submarinos" da OCI, militantes utilizados pela organização que deveriam aderir aos demais partidos de esquerda. Dessa forma, ele é, hoje, o único a conhecer a identidade real de alguns antigos militantes da OCI que foram infiltrados no PS. Por enquanto, Jospin prefere evitar falar desse aspecto de seu passado, mesmo porque ele vem a público, coincidentemente, às vésperas das eleições européias de domingo.

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