Jospin colhe frutos de socialismo pragmático e de resultados
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sexta-feira, 10 de setembro de 1999
Por REALI JÚNIOR, correspondente da Agência Estado 
Paris, 11 (AE) - Depois da "terceira via" do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e do "novo centro" do chanceler alemão, Gerhard Schroeder - que resultou no manifesto social-liberal lançado pelos dois dirigentes às vésperas das eleições européias de junho -, está surgindo uma outra nova proposta que será submetida aos social-democratas, que atualmente dominam a maior parte dos governos da União Européia (UE).
Trata-se de um texto sobre a caminhada para um socialismo moderno, preparado pelo primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, que rejeita as propostas de Blair e Schroeder, as quais preconizam o abandono das teses de Keynes que marcaram o movimento social-democrata europeu.
Os socialistas franceses (PS) continuam defendendo as teorias de Keynes, pelas quais o papel do Estado permanece importante. O PS, fortalecido politicamente pelos bons resultados obtidos na gestão da economia da França, deverá apresentar sua proposta durante a reunião da Internacional Socialista, em Paris, em novembro.
Poucos dias depois, em Florença, os novos caminhos da social-democracia voltam à discussão num encontro mais aberto, inspirado por Blair e com a presença de Bill Clinton e representantes do Partido Democrata americano. Já há algum tempo Blair pretende integrar-se a esse movimento de centro dos democratas americanos.
O presidente Fernando Henrique Cardoso e dirigentes do PSDB estão sendo convidados.
Na verdade, articula-se na França uma resposta ao manifesto da dupla Blair-Schroeder, que Jospin não aceitou assinar por discordar do texto - que considera superadas as teses de Keynes.
Jospin e o PS discordam dessa análise, definida como social-liberal. Os socialistas franceses, estimulados pela derrota dos trabalhistas britânicos nas eleições em junho e dos social-democratas alemães (SPD), nesse mesmo mês e no domingo passado, em eleições regionais - mas confortados pelo bom resultado obtido na França -, estão convencidos de que sua opção por um socialismo moderno e pragmático é a melhor.
Pelo menos são eles que estão colhendo os melhores frutos na gestão administrativa e política. Schroeder terá ainda de impor suas reformas, obrigado a negociar com a oposição da democracia cristã (CDU) e a ala esquerda de seu partido, o SPD, após suas derrotas eleitorais.
No campo administrativo, o governo francês tem-se dado ao luxo de anunciar um plano de redução de impostos, após um excedente fiscal de algumas dezenas de bilhões de francos no primeiro semestre do ano.
Esse mesmo governo em dois anos bateu todos os recordes dos anteriores, conservadores anteriores em matéria de privatização, controlando habilmente uma maioria de esquerda constituída também por comunistas e verdes.
Como conseguir esses resultados, sem renunciar aos princípios de uma participação do Estado que tradicionalmente tem feito parte das políticas dos partidos de esquerda europeus?
A receita é simples, afirmam os socialistas. O PS continua dando importância ao papel dos serviços públicos, partidário de uma "sociedade de economia mista", buscando manter uma aliança entre os setores privado e público e a economia social.
As divergências entre o New Labour, de Blair, e o PS francês vão além disso, revela Henri Weber, secretário nacional do partido. Os trabalhistas ingleses são neoliberais e os franceses, neokeynesianos.
Também a socialista Marisol Tourraine defende o texto francês: "Sua força é levar em conta o apoio dos países social-democratas às forças produtivas, seu desejo de encorajar a inovação e o espírito de empresa, sempre respeitando a especificidade do país... Tudo isso no contexto de um compromisso social cujo objetivo deve ser a luta contra as desigualdades."
O objetivo do primeiro-ministro Jospin é o de modernizar os valores socialistas tradicionais, buscando barrar a evolução desejada por Blair no plano externo e a do verde Daniel Cohen Bendit, no plano interno.
Sua ambição não é só chegar à presidência da República. Jospin busca também uma "nova coerência" para poder oferecer ao socialismo francês as bases teóricas que têm feito falta ao partido nesses últimos 25 anos - desde que François Mitterrand se apoderou da legenda para utilizá-la mais como um instrumento para chegar ao poder e nele se manter.


