Rio, 30 (AE) - Apesar de acreditar no entendimento na reunião de amanhã do diretório fluminense do PT, o presidente nacional do partido, José Dirceu, sugeriu hoje a possibilidade de intervenção da direção nacional caso seja mantido o impasse criado com a resolução do 18º Encontro Estadual do PT, que há uma semana optou pela saída dos petistas do governo Anthony Garotinho (PDT). Dirceu esteve hoje reunido com o presidente regional do partido, deputado Carlos Santana, e a vice-governadora Benedita da Silva para negociar uma solução para a crise.
"O PT do Rio é soberano para tomar a decisão, mas depois teremos o diretório nacional, na semana que vem, e o congresso, no fim do mês", afirmou. "Aí, o partido, em nível nacional, vai avaliar a questão", disse Dirceu. Santana afirmou
no entanto, que a legenda não suportaria uma nova intervenção da direção nacional. "Ninguém quer reviver a intervenção, seria muito ruim, já sofremos muito com a passada." Hoje à tarde os três secretários estaduais petistas e outros 16 membros do governo ligados ao grupo Articulação, de Benedita, entregaram seus cargos ao governador Garotinho, que reafirmou defender a permanência do grupo. Eles deverão ficar no governo pelo menos até o dia 5, quando está previsto um encontro do governador com Santana.
Ao ceder os cargos, os petistas ficaram em situação mais confortável para discutir uma saída para o problema no encontro de hoje. Dirceu criticou Santana, por ter mudado de opinião três vezes sobre o episódio, e reafirmou que é favorável à manutenção do apoio ao governo Garotinho. "O PT sai de governo sim, mas quando há uma razão programática ou ética para isso, que não é o caso do Rio."
Passado - O novo impasse começou praticamente um ano e três meses após a intervenção no PT do Rio que cassou a candidatura a governador de Vladimir Palmeira, do grupo Refazendo, e fechou a aliança em torno de Garotinho, com a coligação que reúne PT, PDT, PSB e PC do B. Os petistas decidiram deixar a administração porque Garotinho chamou a legenda de "partido da boquinha", em alusão à suposta procura por cargos.
A possível nova intervenção tem ainda por objetivo garantir a candidatura de Benedita - que, pelo acordo de 1998, seria candidata à prefeitura em 2000 -, e salvar a frente. Mas no PT e no PDT a leitura é a de que a iniciativa de Garotinho foi uma tentativa de inviabilizar as pretensões eleitorais de Benedita, livrando-o do compromisso de apoio à petista. O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, acredita que o conflito ameace a aliança com o PDT e a candidatura de Benedita à prefeitura do Rio.
Garotinho não admite que queira influir na reunião, mas sua ironia jogou o grupo Opção Popular, de Santana, nos braços do Refazendo, adepto da candidatura do deputado estadual Chico Alencar à prefeitura. Como a tendência Articulação é minoria, a candidatura de Benedita ficou incerta.
O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, suspeita que Garotinho tenta atingir Benedita e a frente. O governador teria dito aos representantes do PT, em reunião da executiva do PDT, que precisa tratar Benedita bem, pois ela "o substituirá em 2002", quando disputaria a presidência. O raciocínio tem como pressuposto que Benedita não será eleita prefeita. A vice, no entanto, não reconhece que foi prejudicada por Garotinho e garante que a aliança continua.
No Refazendo, a avaliação oficial é que a frente não está ameaçada pela decisão do PT regional, mas é atrapalhada pela movimentação eleitoral do governador fluminense. "Deixar os cargos não cria problema para a aliança", diz o deputado Milton Temer, que é do grupo. Para Temer, Garotinho monta uma operação nacional para aproximar-se do PMDB, o que, para o deputado, é decorrência lógica de sua candidatura a presidente, virtualmente inviável na esquerda. "Como ele vai ser candidato, pelo PDT?", pergunta o deputado. "Contra Lula?"

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