Cidade do Vaticano - O papa Francisco voltará a ser destaque no Brasil nos próximos dias ao declarar santo o beato José de Anchieta, considerado o "Apóstolo do Brasil". Sem pompas nem festas, a canonização - termo eclesiástico que marca oficialmente o ingresso no rol dos santos – será feita no dia 2 de abril, numa audiência que o pontífice concederá ao prefeito da Congregação das Causas dos Santos, cardeal Angelo Amato. Depois de ouvir o relatório sobre a vida do jesuíta, Francisco assinará o decreto, quase 400 anos depois do primeiro pedido de canonização de Anchieta.
Anchieta será o primeiro santo de 2014 e o segundo jesuíta a ser canonizado por Francisco (em dezembro passado, foi a vez do francês Pedro Favre). Não se trata de "favoritismos" para a Ordem do papa, à Companhia de Jesus, pois a canonização de Anchieta se insere num contexto mais amplo. Na mesma audiência serão declarados santos dois missionários franceses que viveram no Canadá: o bispo François Monseigneur de Laval (1623-1708) e a freira Marie de L’Incarnation (1599-1672).
"O papa quer canonizar, em uma só ação, os evangelizadores da América. Laval e L’Incarnation são os da América do Norte e Anchieta, da América do Sul", explica o vice-postulador da causa, padre Cesar Augusto dos Santos, que é também o responsável pelo Programa Brasileiro da Rádio Vaticano, com sede em Roma.
Já no dia 24 de abril, o papa celebrará uma missa em ação de graças na Igreja de Santo Inácio, no centro histórico da capital italiana, na presença de autoridades civis e eclesiásticas de vários países.
Francisco decidiu canonizar Anchieta depois de um pedido oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em outubro passado. Dois meses depois, o presidente da CNBB, dom Raymundo Damasceno Assis, recebeu um telefonema pessoal do pontífice, respondendo positivamente ao pedido. A canonização será feita na forma chamada "equipolente", isto é, por decreto. De fato, a decisão de Francisco de adotar um estilo mais simples e sóbrio em seu pontificado se aplica também neste caso, optando por assinar o documento em vez de presidir uma solene celebração pública – uma maneira de evitar gastos excessivos que geralmente ocorrem nessas ocasiões. Outra peculiaridade na causa de Anchieta foi a dispensa, por parte do papa, da comprovação de um milagre. "Na história da Igreja, houve muitos casos semelhantes. Mesmo porque a exigência de comprovação de milagres é relativamente recente", explica o padre Cesar Augusto. Segundo ele, a dificuldade neste processo foi provar os milagres "por causa da falta de documentação".
Durante 18 anos, padre Cesar Augusto levantou informações que comprovassem a santidade de Anchieta. O resultado desse trabalho, entregue ao Vaticano, é uma ampla documentação com 488 páginas, em que há o registro de 5.350 pessoas que alcançaram graças rezando ao beato.
Todavia, para o vice-postulador da Causa, o que fez José de Anchieta ser merecedor da canonização, foram a sua "humildade, seu testemunho de fé inabalável em Deus, a esperança e a caridade".

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