Jornalistas fazem um retrato do Brasil
Jornalistas fazem um retrato do Brasil
Em plena seca nordestina, evento reúne jornalistas de todo o mundo em Recife. Tema foi o papel da imprensa e os problemas sociais
Paulo Briguet
Enviado a Recife
Ricardo Silveira/Divulgação
Passando o chapéuO presidente da Federação Internacional, Jens Linde, recolhe dinheiro para jornalistas perseguidosQuis o destino que o 23º Congresso Mundial de Jornalistas acontecesse às portas de um drama do subdesenvolvimento: a seca nordestina. O evento foi realizado de 3 a 7 de maio. Pela primeira vez, o congresso ocorreu no hemisfério sul do planeta: Recife, Pernambuco, Brasil.
CENÁRIO 1: no Centro de Convenções de Recife, mais de 2 mil pessoas, jornalistas e estudantes dos cinco continentes, repensaram a função dos jornais, os rumos da civilização moderna e os dilemas éticos na era da revolução tecnológica.
CENÁRIO 2: agricultores com fome, vítimas da seca, saquearam mercados em cidades do interior. Um pai de família pernambucano garantiu na TV que não se amedrontava ao fazer um saque pela primeira vez na vida: A fome tira qualquer medo.
Os dois cenários coexistiram a poucos quilômetros de distância na última semana.
Eudes Santana
DebateSeminários reuniram 2 mil profissionais e estudantes do mundo inteiro: em pauta, a função dos jornalistas
O desafio do Congresso Mundial de Jornalistas foi refletir sobre o papel da imprensa entre dois cenários, dois planetas profundamente interligados. O primeiro planeta é o da convergência tecnológica, da rapidez da informação, das leis do mercado e da globalização. O segundo planeta é o da exclusão social, do desemprego, do abandono, da fome, da miséria e da ignorância. Ocorre que as duas realidades convivem em um único globo terrestre, às vésperas do novo milênio. Como Pernambuco demonstrou.
Corremos o risco de ver a humanidade dividida em duas: os ricos, fortes e informados versus os pobres, doentes e ignorantes, disse o governador do Distrito Federal, Cristóvam Buarque (PT). Em sua conferência, Buarque afirmou que a imprensa tem um papel fundamental para evitar que o planeta seja separado por extremos de civilização e barbárie, onde os homens percam até mesmo o direito à condição humana. Os jornais exibem grandes fusões de bancos internacionais e grandes fomes na África, mas não mostram o vínculo entre as duas realidades, comentou o governador. As pessoas precisam saber, por exemplo, que com 3% do dinheiro gasto com armas é possível dar 850 milhões de bolsas-escola para as crianças que trabalham no mundo.
Os meios de comunicação tiveram um rápido e assustador desenvolvimento neste século. Mas isso nem sempre vem acompanhado de avanços éticos e humanismo. Logo no início do Congresso, o presidente da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), o dinamarquês Jens Linde, literalmente passou o chapéu entre o público presente. Ele pediu contribuições em dinheiro para a causa de profissionais de imprensa perseguidos - censurados, presos, torturados, mortos - por governos ditatoriais no mundo todo. A história mostra que o rádio levou 38 anos para atingir 50 milhões de pessoas; a TV levou 13 anos para conseguir o mesmo público; a TV a cabo, 10 anos; a Internet, 5 anos. A mesma velocidade não é vista quando se trata da liberdade de imprensa. Perseguições continuam cerceando jornalistas e crescem ano a ano em diversos países.
Representantes internacionais discutiram assuntos da profissão em reuniões restritas da Federação Internacional dos Jornalistas. Mas o maior destaque ficou mesmo para os seminários abertos, em que todos podiam participar. Nos painéis de debate, jornalistas, intelectuais e profissionais brasileiros mostraram suas preocupações sobre o futuro da informação, essa ponte que liga - ou deveria ligar - os dois planetas em um só.
O avanço dos grandes impérios internacionais da comunicação foi um tema constante no Congresso Mundial. Entre esses grupos gigantescos, prevalece a filosofia do Cidadão Kane (filme de Orson Welles): subestimar o povo e ganhar dinheiro, comentou o jornalista Raimundo Pereira. Ele tem um currículo respeitável dentro da imprensa brasileira, quase sempre remando contra a corrente do poder. Autor de reportagens antológicas nas revistas Veja e Realidade, editor de dois históricos jornais de resistência à ditadura militar (Opiniãoe Movimento), Raimundo é um crítico do endeusamento da tecnologia. Ele adverte os entusiastas da globalização: Apenas revolução tecnológica e dinheiro não salvam nem nunca salvaram o mundo. Mais importante que a tecnologia, afirmou Raimundo, é fazer uma comunicação baseada em padrões éticos e na credibilidade. Não é uma tarefa fácil para o jornalistas, porque a busca da verdade exige estudo e persistência. Ex-editor do sociólogo Fernando Henrique Cardoso , Raimundo defende um antigo lema comunista - Toda verdade é revolucionária - e a máxima bíblica - Crê na verdade e ela te libertará.
O jornalista Ricardo Kotscho, da TV Bandeirantes, com currículo igualmente extenso na imprensa brasileira, concordou que a tecnologia não representa o elemento mais importante para a profissão. Nesta época em que a comunicação é cada vez mais veloz e sofisticada, Kotscho analisou: Em breve, todos os meios de comunicação vão ter a mesma condição tecnológica. O que vai fazer diferença é o comportamento ético de cada um. Segundo ele, a velocidade dos meios e a correria dos fechamentos não podem ser desculpas para a deturpação dos fatos. Kotscho acredita que a função do jornalista é lutar pela liberdade como quem defende os próprios filhos. O repórter deve andar na contramão da lei da selva, do cinismo, do dinheiro fácil, da esperteza, da malandragem, do salve-se quem puder.
Ricardo Kotscho disse que nunca houve tanta liberdade de imprensa no País e nunca ela foi tão mal aproveitada: Quando comecei a trabalhar no jornalismo, não havia fax, computador, modem. E havia censura e tortura. Hoje muita gente desiste de lutar pela verdade sem sequer tentar, porque tem medo de perder o emprego. Mas no passado houve gente que perdeu a vida pela liberdade de informar. O bom jornalismo, para Kotscho, pode ser feito no teclado do Pentium ou da velha Remington. O que vale é a essência.
Em 1964, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony publicou uma série de artigos no jornal carioca Correio da Manhã, onde criticou as arbitrariedades do governo Castello Branco, empossado por golpe de estado naquele ano. Cony foi perseguido e preso pela ditadura. Hoje, ele revive a condição de persona non grata para o governo federal, com cáusticos artigos sobre o presidente Fernando Henrique Cardoso e sua equipe, publicados diariamente na Folha de S. Paulo. Cony esteve no Congresso Mundial dos Jornalistas e sentenciou: Muitos de nós não sabemos dizer como se forma a laranja, mas quase sempre podemos dizer se ela está podre. Para Cony, o jornalista não deve nunca deixar de apontar a podridão da laranja chamada poder.
Cony não modera críticas aos grandes meios de comunicação brasileiros: A imprensa não é um quarto poder. É nada mais que um tanque a serviço do poder e de uma filosofia que massacra a sociedade pelo lucro. Mas a meta dos jornalistas deve ser procurar espaços éticos, mesmo no ambiente hostil. Na opinião de Cony, se não existir esse empenho pessoal dos jornalistas, o povo poderá dar razão à tirada do escritor Mark Twain: Às vezes, a única informação verdadeira em um jornal é a data.
O presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, fez aos jornalistas um depoimento sobre o problema da seca e as desigualdades do Brasil: Ao lado dos pequenos agricultores vitimados pela seca, há poços artesianos em fazendas particulares, construídos com dinheiro público. Ele lembrou que a CUT defende distribuição de alimentos para as famílias atingidas pela seca, mas não faz críticas aos saques promovidos na região. Essas pessoas não estão fazendo saques de perfumes, eletrodomésticos ou outras mercadorias. Elas estão em busca de comida. Sentem fome. São vítimas de uma seca prevista pelo governo. Há uma lei maior que todas: o direito de viver. Vicentinho disse ter participado de tentativas de saques a uma feira na região de Acari, Rio Grande do Norte, quando era jovem. Fiz porque sentia fome. Sei que a dor humana vai além das leis do mercado.
O Congresso Mundial dos Jornalistas veio a tempo de debater outro em pauta na mídia nacional: os 500 anos do descobrimento. O vice-presidente da República, Marco Maciel, fez uma palestra aos congressistas e discutiu a integração do Brasil com a comunidade internacional. Para Maciel, o século XVI foi um dos mais longos da história, uma vez que as navegações superaram o tempo cronológico e suas consequências foram sentidas pelo menos até 1650, com o surgimento de novas fronteiras para o mundo europeu. O vice-presidente citou o historiador marxista inglês Eric Hobsbawn para dizer que o século XX, ao contrário, foi um dos mais curtos, terminando com o esfacelamento da União Soviética em 1991. Segundo ele, a semelhança está na importância dois períodos para o Brasil. Hoje temos a chance de uma maior integração ao mundo, levando-se em conta a unidade linguística, a harmonia e a tolerância cultural dos brasileiros. Segundo ele, a educação tem papel fundamental no advento do novo milênio.
Maciel preferiu deixar o Congresso Mundial dos Jornalistas depois de sua palestra. Ele alegou compromissos em Brasília. No dia anterior, havia sido vaiado diante dos congressistas por estudantes da Universidade Federal de Pernambuco, que estão em greve pela falta de verbas e os baixos salários da instituição.
O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Américo Antunes, lançou polêmica: As comemorações pelos 500 anos do descobrimento do Brasil não podem se tornar um mero espetáculo de marketing. Antunes rememorou o genocídio dos povos indígenas, o período da escravidão e as mazelas sociais do País. Para ele, mais importante é saber quais serão os compromissos para o próximo milênio, principalmente quanto aos direitos básicos dos cidadãos brasileiros. Segundo Antunes, a Fenaj vai se unir à sociedade para exigir condições dignas de saúde e cidadania, valorização da cultura nacional, combate à miséria, reforma agrária, demarcação de terras indígenas, recuperação de rios, proteção a matas nativas e distribuição de renda.
O líder indígena Marcos Terena reforçou a argumentação crítica, dizendo que os 500 anos de descobrimento na verdade representaram o silêncio forçado dos índios. Nós fomos os grandes mudos da história. Nos 500 anos, vamos parar um pouco e finalmente dizer: basta de injustiça e de pobreza.
Um grupo de profissionais alemães estranhou que no Congresso Mundial dos Jornalistas fossem discutidos temas tão amplos. Ricardo Kotscho resumiu a questão quando explicou a eles: No Brasil, discutir jornalismo é discutir a sociedade, porque aqui tudo está para ser feito, até as questões mais básicas da sobrevivência. Todos os problemas ainda precisam ser resolvidos.
A seca prova que Kotscho está certo.





