Merida, México (AE-AP) - Sua voz continua a rugir quando ele denuncia o governo. Ele continua a preferir as camisas guayabera que usava enquanto fazia reportagens sobre os conflitos com a guerrilha na América Central e durante uma década de exílio em Cuba.
A cobertura de insurreições esquerdistas que fizeram sua carreira podem estar em declínio, mas o jornalista Mario Menendez nunca teve qualquer problema para encontrar uma causa. Sua postura está refletida no nome de seu último jornal, o Por Esto! (Por isto!), cuja circulação diária atinge 40 mil exemplares.
Aos 62 anos, Menendez trava uma batalha com o diretor do maior banco mexicano, a quem ele acusa de retirar, à força, pobres pescadores de seu território na costa do Caribe para construir um império no local e, com menos evidência, de estar contrabandeando drogas.
Este é um tipo de luta no estilo Davi e Golias que Menendez gosta de tomar parte. "Eu sou o único editor no México que vai á corte de injunção com ele no bolso da camisa", diz Menendez, orgulhoso ao mostrar o documento que impede sua prisão por calúnia, preenchida pelo banqueiro.
Pegar os peixes grandes e proteger os pequenos vem sendo o objetivo da vida de Menendez. Após começar sua carreira no jornal do seu avô, localizado em Yucatan, em 1958, ele começou a trabalhar para revistas em meados da década de 60 com o objetivo de escrever matérias sobre o assunto da época: o começo das guerras de guerrilha na Guatemala, onde índios sem-terra estavam se rebelando contra séculos de opressão.
"Nós estávamos numa excursão oficial na Guatemala com o presidente mexicano. Após a visita, alguém nos enviou cartões que diziam Vocês viram um lado da Guatemala, agora, devem ver o outro", ele recorda. Menendez foi o único repórter a aceitar o convite dos rebeldes. Ele passou um mês vivendo com o incipiente movimento de guerrilhas, cuja luta tornou-se uma verdadeira guerra civil. Ainda hoje, ele mostra as pungentes fotografias que fez dos filhos dos rebeldes. Menendez foi expulso da Colômbia dois anos depois por fazer reportagens sobre as guerrilhas de esquerda no país. Então, durante o tumultuoso ano de 1968, ele fundou a revista que o levaria para a cadeia no México: "Por que?".
No dia 2 de outubro daquele ano, Menendez estava observando a praça de Tlatelolco, na cidade do México, quando soldados abriram fogo contra estudantes em protesto. A maioria dos jornais mexicanos, controlados ou intimidados pelo governo, não divulgaram o acontecimento e, naquele dia, ninguém sabe quantas centenas de estudantes foram mortos.
Mas a revista "Por Que?" publicou fotos do massacre e imprimiu reportagens afirmando que oficiais superiores do governo haviam ordenado a matança, e não o exército. A biografia de um ex-secretário de defesa, publicada em junho, parece sustentar o conteúdo publicado na revista. O massacre serviu como combustível para os movimentos de guerrilha esquerdista no México e o provocou o nervosismo do governo.
Em fevereiro de 1970, Menendez foi preso sob acusação de sedição e levado para a temida cadeira da Cidade do México, conhecida como "O palácio negro", juntamente com dezenas de prisioneiros políticos. Mais tarde, o governo destruiu sua gráfica e fechou sua revista.
Em novembro de 1971, um grupo de guerrilheiros esquerdistas sequestraram uma distribuidor da Coca-Cola no estado sulista de Guerrero e exigiram, em troca de sua liberdade, que alguns presos políticos fossem soltos, entre eles Menendez.
Poucos dias depois, Menendez foi enfiado num avião militar mexicano e secretamente enviado para Cuba. Seu passaporte foi confiscado e ele foi impedido de voltar ao México. Pelos dez anos seguintes, ele trabalhou para a agência cubana de notícias e foi professor de filosofia em Havana. Seu amigos no México conseguiram permissão para que ele voltasse ao país em 1981.
Menendez permaneceu quieto na capital da província de Yucatan
Merida, até que seu pai, também jornalista, dissesse a ele que era hora de abrir um jornal. Por Esto! nasceu em 1991 e desde então não parou de crescer. Em seu quinto ano, o jornal começou o que tornou-se sua mais feroz cruzada - reportagens sobre o que Menendez sustenta ser a tomada de terras e o contrabando de drogas na costa caribenha do México por Roberto Hernandez, chefe executivo do banco Banamex.
Bobby Settles, parceiro de norte-americano de Hernandez num império litorâneo de 35 quilômetros, diz que ele e seu sócio são vítimas de uma campanha de difamação. Ele afirma que comprou a propriedade "para preservar o ecossistema no local". Hernandez recusou-se a ser entrevistado, mas alega que Menendez fez "acusações infundadas, que o expuseram ao ridículo".
A história da península caribenha de Hernandez e o seu uso envolvem algumas das mais espinhosas questões sociais na América Latina: o poder do dinheiro e da influência política, distâncias geográficas e a falta de recursos dos pobres.
Quando os membros da cooperativa de pescadores foi ao jornal de Menendez para reclamar que o magnata bancário estava tentando tomar suas terras, o editor prometeu ajudar. "Eu disse a eles: Vocês têm a minha palavras de honra. Nós não vamos desistir desta matéria". Ele enviou repórteres para a isolada costa , onde se chega apenas de barco ou avião, onde Hernandez e os pescadores estavam brigando pelos direitos de propriedade.
Os repórteres encontraram pacotes de cocaína nas praias do banqueiro, ao redor de um barco em latas de azeite com marcas de fabricação da Colômbia, que é as origem das drogas que viajam, via costa caribenha mexicana, para os EUA.
Menendez tinha visto o suficiente para publicar uma matéria sob a manchete: "Roberto Hernandez, traficante de drogas". A resposta veio rápida. Uma companhia de papel de propriedade do governo cortou o fornecimento, forçando Menendez a importar papel dos EUA e Hernandez abriu um processo contra ele.

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