Jornal mostra papel dos EUA nos abusos da Guatemala
Washington, 11 (AE-REUTERS) - Na década de 60, os Estados Unidos estiveram intimamente envolvidos no treinamento e fornecimento de equipamentos para as forças de segurança da Guatemala que assassinaram milhares de civis numa sangrenta guerra civil, segundo documentos do serviço secreto americano publicados hoje (11) pelo The Washington Post.
Segundo o jornal, a CIA manteve relações diretas com o Exército guatemalteco também durante a década de 80, quando os militares e seus aliados paramilitares estavam massacrando indígenas. De acordo com o Post, os oficiais americanos sabiam dos massacres na época.
O The Washington Post informou que adquiriu os documentos do Arquivo de Segurança Nacional, um grupo privado sem fins lucrativos baseado em Washington, e enquanto alguns papéis já haviam sido entregues a uma comissão independente que investiga os abusos dos direitos humanos na Guatemala, outros foram divulgados ontem (10) pela primeira vez.
Um deles é um memorando do Departamento de Estado americano de 4 de janeiro de 1966, no qual um oficial descreve como ele conseguiu um espaço no palácio presidencial para ser utilizado por agentes de segurança guatemaltecos e seus contatos americanos.
O "local seguro" tornou-se, segundo o Post, o quartel-general da "guerra suja" da Guatemala contra insurgentes de esquerda e seus supostos aliados.
Três meses mais tarde, forças de segurança prenderam 32 pessoas acusadas de auxiliar rebeldes marxistas, sendo que todas "desapareceram" misteriosamente.
A Guatemala nega qualquer envolvimento no caso, mas um agente da CIA, segundo o Post, enviou um relatório tempos mais tarde identificando três dos desaparecidos e afirmando: "Os seguintes comunistas e terroristas guatemaltecos foram executados secretamente por autoridades da Guatemala na noite de 6 de março".
Em 1967, um outro agente da CIA enviado secretamente para a Guatemala informou que operações encobertas da segurança guatemalteca, incluindo "sequestros, tortura e execuções sumárias", provocaram a morte de 500 a 600 pessoas nos anos anteriores.
"Adicionando as pessoas desaparecidas, este número pode subir para 1.000-2.000", disse o cabo, segundo o Post.
Nos anos 90, agentes da CIA comunicaram que vilas inteiras estavam sendo "queimadas" e que na década de 80 os militares guatemaltecos haviam jogado de aviões supostos guerrilheiros - vivos ou mortos - no oceano.
"Desta forma, eles conseguiam remover a maioria das evidências de que os prisioneiros eram torturados e assassinados", informa um memorando da Agência de Inteligência e Defesa de abril de 1994, segundo o jornal.
Hoje, o presidente dos EUA, Bill Clinton, admitiu o envolvimento americano nos 36 anos de guerra civil na Guatemala e expressou um profundo pesar pelo papel desenvolvido por Washington.
Segundo Clinton, numa visita oficial ao país, os EUA "erraram" ao dar apoio às forças de segurança guatemaltecas na brutal campanha que matou milhares de civis.





