Jornais espanhóis publicam exame secreto de Pinochet
Londres, 16 (AE-AP) - Augusto Pinochet, de 84 anos, sofreu nos últimos meses danos cerebrais que causam lapsos de memória e o incapacitam para enfrentar um julgamento, escreveram hoje (16) dois jornais espanhóis que afirmam ter obtido cópias de um recente relatório médico britânico sobre o ex-ditador chileno.
Os quatro peritos médicos britânicos que examinaram o general em janeiro teriam concluído que ele ainda sofre de múltiplos males físicos, como diabete e problemas cardíacos, e uma melhora significativa em seu estado de saúde é "improvável".
Os jornais espanhóis ABC e El Mundo publicaram o que eles garantem ser transcrições de partes do relatório um dia depois que a Alta Corte da Inglaterra ordenou ao secretário do Interior britânico, Jack Straw, entregar o documento médico para a Espanha e três outros países que buscam a extradição de Pinochet.
Com base no documento, Straw pretendia conceder a Pinochet o benefício da libertação por razões de saúde. Mas o ministro, argumentando que o réu tinha direito ao sigilo médico, recusava-se a entregar o relatório dos peritos às partes interessadas no caso - principalmente Espanha, Bélgica, França e Suíça, que pediam a extradição do ex-ditador para julgá-lo por crimes contra a humanidade cometidos na época em que governou o Chile com mão de ferro, de 1973 a 1990.
Em Londres, advogados de Pinochet disseram que irão entrar com uma ação legal por causa do aparente vazamento do relatório.
A Secretaria do Interior britânica, que trata dos casos de extradição, pediu à Espanha para investigar o vazamento do relatório. O governo espanhol negou ter qualquer coisa a ver com o vazamento.
Por meio de seu porta-voz, Alastair Campbell, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, qualificou o vazamento de "lamentável".
Os jornais espanhóis não revelaram como obtiveram cópias do relatório. Mas uma fonte próxima a juízes espanhóis que buscam a extradição de Pinochet garantem que os governos chileno e espanhol fizeram vazar o relatório porque ele aparentemente favorece os argumentos dos dois de que Pinochet deve ser libertado.
Um jornal chileno, La Tercera, escreveu em seu site na Web que o governo chileno havia oferecido partes do relatório médico. Mas em sua edição impressa, La Tercera omitiu qualquer menção de ter recebido o relatório do governo, e citou apenas os jornais espanhóis.
Atendendo a uma apelação do governo belga - que questionou a legalidade da iminente decisão de Straw de libertar Pinochet com base num documento sigiloso -, a Alta Corte britânica determinou que cópias do relatório fossem enviadas aos quatro países, na condição de que o conteúdo do laudo não fosse divulgado. Ao acatar a petição da Bélgica, o tribunal abriu espaço para que novas audiências sobre o caso sejam realizadas, postergando o anúncio de Straw para libertar o general.
O vazamento da informação que deveria constar apenas na parte sigilosa do processo está sendo investigado pelo Ministério das Relações Exteriores da Espanha. O chanceler espanhol, Abel Matutes, negou as acusações de que seus assessores tivessem entregado o documento aos jornais.
No relatório, os médicos teriam afirmado que "em nossa opinião, no momento presente, o senador (cargo vitalício que ele exerce no Chile na condição de ex-presidente da república) Pinochet não tem a capacidade mental para participar de um julgamento e entender os pormenores do caso contra ele".
"Há evidência clínica de danos importantes no cérebro", prosseguem os peritos, especificando que as principais lesões estão nos lóbulos frontal e temporal do órgão. "Sua memória de fatos remotos está muito prejudicada. Ele teria dificuldades para fazer-se ouvir e para compreender perguntas, além de ter perdido a capacidade de expressar-se de forma audível, sucinta e relevante."
Advogados de parentes de vítimas da ditadura observavam hoje que os peritos tiveram o cuidado de analisar separadamente os aspectos mental e físico da saúde de Pinochet.
"Estado anímico: bom entendimento e cooperativo. Rosto imóvel. Sentido de humor: intacto. Nenhuma evidência de depressão", relatava o documento.
"O conteúdo do relatório não impede um julgamento", disse o advogado argentino Carlos Slepoy, que representa parentes de vítimas da ditadura chilena. "Há hoje nas prisões milhares de pessoas com capacidade de compreensão inferior à apresentada por Pinochet."
Em Roma, o ministro de Relações Exteriores do Chile, Juan Gabriel Valdés, informou ter convidado formalmente a Bélgica a participar de um possível processo contra Pinochet nos tribunais chilenos.





