Washington, 20 (AE) - A desproporção entre a breve e rala biografia de John F. Kennedy Jr. e a reação de genuíno pesar que sua morte trágica provocou entre milhões de americanos levou os principais comentaristas da grande imprensa dos Estados Unidos a buscar, nos últimos dias, uma explicação além do culto da celebridade. Esta, aliás, era uma condição que JFKJr. aceitou por falta de alternativa - nasceu célebre, praticamente na Casa Branca, único filho homem de um jovem e carismático presidente morto a tiros quando ele tinha apenas três anos -, mas nunca incentivou.
Andy Rooney, o septuagenário cronista de humor do 60 Minutes, o programa jornalístico de maior audiência nos EUA, deixou a graça de lado no último domingo para dar o seu palpite. "No começo, eu também achei a cobertura exagerada", confessou ele. "Mas a tristeza e emoção que sinto diante da morte desse jovem que todos nós vimos crescer fez-me pensar outra vez", disse. "Ele nunca entrou na política, mas era o herdeiro de uma dinastia política que, apesar de sua fortuna, motivou uma geração de americanos para o idealismo do serviço à sociedade e tomou a defesa dos mais fracos como sua bandeira". Rooney lembrou que, em meio às várias tragédias e controvérsias que sacudiram a família e o país nas últimas quatro décadas, jamais houve um escândalo de corrupção com um Kennedy. Mais do que a pessoa, "é a honestidade e esse idealismo que os Kennedy representam que nós reverenciamos", afirmou ele.
Os críticos, que vêem mais os Kennedy mais como mito, criado pelo assassinato dos dois maiores expoentes da família - o presidente John F. Kennedy, em 1963, e seu irmão mais novo e candidato a presidente, Robert, em 1968 -, tiveram sua visão reforçada hoje por Richard Cohen, o mais liberal e kennedista dos colunistas do Washington Post.
Normalmente um analista ponderado, Cohen escreveu hoje uma emocionada condenação dos especialistas em aviação que, sem exceção, atribuíram a causa mais provável do acidente que matou John Jr à sua inexperiência como piloto e à óbvia imprudência que cometeu ao decolar para um vôo noturno e em condições de tempo e visibilidade que não estava preparado nem era habilitado para enfrentar. "Parem de por a culpa em John", pediu Cohen. "Já basta que a tragédia tenha uma vez mais punido os Kennedy - ela não precisa da nossa ajuda".
A exploração da tragédia nos intermináveis especiais da televisão e a busca de um sentido maior para o episódio provavelmente surpreenderia o próprio JFKJr. Criado como uma pessoa supreendentemente normal para sua condição, por obstinada determinação de sua mãe, Jacqueline Kennedy Onassis - ela também vista como uma heroína pelos americanos pela dignidade com que enfrentou a perda do marido-, em sua breve vida adulta John evitou explorar seu nome famoso. Um de seus amigos pessoais, o jornalista Jonathan Alter, contou que, recentemente, ele recusou um título de doutor honoris causa de uma pequena universidade privada do estado de Maryland, aceitando apenas uma citação especial e a honra de ser o paraninfo da turma, "porque achava que não havia feito nada de especial para merecer a homenagem". Nos últimos anos, ele financiou um par de fundações beneméritas
mas sem dar publicidade - um sinal adicional, talvez, de que pretendia algum dia ingressar no "negócio da família", ou seja
a política. Nunca descartou essa possibilidade nas conversas com os amigos mais próximos, que o descreveram nos últimos dias como uma pessoa afável, despretenciosa e com senso de humor. "Claramente, eu não sou um grande gênio", definou-se ele, alguns anos atrás, depois de ser reprovado pela segunda vez no exame de habilitação para exercer a advocacia em Nova York.
"Quem conhecia John gostava dele", disse a jornalista Christiane Amanpour, da rede CNN, que conviveu numa república de estudantes com ele, nos tempos de univesidade. "Ele viveu em seus próprios termos e não para atender as expectativas criadas em torno dele". Segundo Amanpour, que passou o fim de semana passado com John e a mulher Carolyn na casa de veraneio do casal
em Marthas Vineyard, JFKJr. falava de política com os amigos, mas como qualquer pessoa falaria. Ela contou que, durante o escândalo Lewinsky, ele chegou a pensar em fazer uma declaração pública, condenando a atmosfera de circo na qual os políticos e a imprensa haviam transformado o episódio, mas foi desencorajado pelo marido de Amanpour, o porta-voz do departamento de Estado, James Rubin.
"John Kennedy Jr. conhecia o suficiente sobre política para evitá-la", escreveu o jornalista Sam Tanenhaus, da revista Vanity Fair.
Afora um discurso na convenção nacional do Partido Democrata, em 1988, sua única incursão nesse campo foi como observador e comentarista. Em 1995, lançou a revista mensal George, uma publicação assumidamente irreverente e dedicada a tratar a política como um esporte, dominado por celebridades. Para E. J. Dione Jr., um colunista político do Washington Post, o tom editorial da George, a maneira digna mas ao mesmo tempo alegre com JFKJr. se comportava em público e a independência de espírito que os amigo viam nele talvez fossem o índicio de algo herdou do pai, "um sentido de pragamática ironia, da vida como comédia e aventura, simultaneamente frágil e excitante".

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