O Congo tem 80% de cristãos, divididos entre católicos (50%), protestantes (20%) e kimbanguistas (10%). Mas, segundo Muleka, 100% da população vive a religião africana tradicional, o que se chama, no Brasil, de candomblé e umbanda. ‘‘Se é Natal, todo mundo vai à missa, por exemplo, mas se existe um problema para solucionar, se alguém ficou doente consulta o feiticeiro.’’
Muleka fala da religiosidade africana, comparando-a a tecnologias desenvolvidas no nosso século. Ele cita como exemplo o jogo de búzios, conhecido na África como opelê-ifa ou kissolo. O professor diz que o jogo é uma alta tecnologia da religiosidade africana, que funciona como o computador, em linguagem binária. Aliás, esse foi o tema de sua tese de doutorado: ‘‘Kissolo: modelo africano de máquinas para processamento de informações’’, defendido na USP, em 1989.
Ele defende que o kissolo é uma espécie de ‘‘máquina inteligente’’: ‘‘Isso derruba a idéia de que os negros são burros. Como, se foram eles que inventaram as primeiras máquinas inteligentes?’’
O professor diz que a religião africana não é especulativa como o cristianismo. Ela pretende solucionar os problemas psicológicos, sociais e econômicos mais urgentes das pessoas. Muleka defende que a religião africana não ensina ninguém a ascender espiritualmente. Isso é tarefa da sociabilidade, e uma das técnicas para aprender a solucionar coletivamente os problemas seria o jogo de búzios: ‘‘Como técnica de adivinhação, o jogo ensina que nenhuma concha isolada é significativamente importante, e que nem todas as conchas juntamente abertas ou fechadas têm significado’’, observa. ‘‘O opelê-ifa fala sobre o presente, não sobre o futuro, da mesma maneira que a meteorologia. Mas sempre é bom levar um guarda-chuva’’.

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