João Paulo II se transforma no papa do arrependimento Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 02 (AE) - Existe algo de patético, de respeitável, de nobre na energia que o papa João Paulo II emprega para pedir "perdão" pelas faltas cometidas pela Igreja ao longo dos séculos. João Paulo II já marcou o próximo dia de arrependimento: será no dia 8 de março do ano 2000, ou seja, na Quarta-feira de Cinzas, que constitui uma data muito propícia para o arrependimento.
Tudo acontece como se João Paulo II, à medida que sua vida (ou sua morte) vai avançando, estivesse cada vez mais atormentado pelas páginas negras ou vermelhas da Igreja. Cada vez que ele fala destas questões - como acabou de fazê-lo na quarta-feira no Vaticano - amplia o campo do "arrependimento". No caso da Shoah (o Holocausto), por exemplo, ele já manifestou seu pesar.
Hoje, ele está mais arrependido do que nunca, porque pede perdão não apenas pelas cumplicidades reais mantidas às vezes com os horrores dos campos de extermínio, mas também "por aquilo que foi omitido ou silenciado, seja por fraqueza, seja por erro de apreciação, por tudo o que foi dito ou feito de maneira indecisa ou imprópria".
Vemos que o papa do arrependimento vai bem longe. Mas, é preciso dizer que a Igreja é tão anciã e tão misturada a tantos dramas da História que o número de seus erros é imenso. Por isso, João Paulo II se contenta em enumerar os "cabeçalhos" desses capítulos do horror.
Em primeiro lugar, as guerras de religião, a divisão entre os cristãos e, muito claramente, a Inquisição (esta última um dos cúmulos da perversão do Catolicismo).
De sorte que aflora um segundo tema sob o pedido de perdão: a vontade de militar em favor da paz religiosa e de um diálogo entre as diferentes famílias da Cristandade e mesmo entre as três religiões monoteístas.
É sob esta luz que se deve analisar a vontade obstinada do papa de viajar para o Iraque, que aliás, é uma viagem de altíssimos riscos políticos. Na realidade, o Iraque possui a cidade mais sagrada do mundo, Ur, na antiga Caldéia, que foi a cidade de Abraão, isto é, do "pai dos crentes" judeus, cristãos e muçulmanos.
Esta peregrinação à cidade de Abraão não agrada a todos: os Estados Unidos, que odeiam Saddam Hussein e mantêm um bloqueio doloroso contra o Iraque, e também Israel, são muito hostis ao programa que o papa pretende cumprir.
Ao contrário, Saddam Hussein está encantado e o patriarca da importante comunidade católica caldéia, monsenhor Raphael Bidawid, insiste para que o papa viaje a Ur.
Na mesma viagem, o papa pretenderia prestar sua homenagem a outro personagem notável, Moisés, visitando o deserto do Sinai, que se encontra no Egito. E depois, é preciso não esquecer que o nome do papa é em parte tirado de São Paulo. Portanto, prevê-se que no ano 2000 o papa poderia viajar para os lugares que ilustraram a vida deste grande viajante que foi o apóstolo Paulo.
Começaria por Damasco, onde Paulo empreendeu seu famoso "caminho" e foi iluminado pelo Cristo. Mais tarde, Paulo pregou em Atenas. Seria portanto lógico que João Paulo II viajasse para esta cidade. Infelizmente, os gregos de 1999 não apenas são maçiçamente ortodoxos, mas, além disso, são meio retrógrados e não têm nenhum desejo de receber entre eles o chefe da Igreja de Roma.





