Jararaca e negligência matam menina em SP
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domingo, 09 de novembro de 1997
Agência Estado São Paulo 
Pela primeira vez em vários anos o Hospital Vital Brasil, do Instituto Butantã, em São Paulo, registrou uma morte por picada de jararaca. A vítima, Daiane, uma menina de um ano e sete meses, foi picada no quintal de sua casa, em Santo Amaro. Os médicos do hospital estão revoltados porque a morte só ocorreu por causa da demora no atendimento correto da menina, três dias. O fato se repetiu posteriormente com outras duas crianças - que ainda estão internadas no hospital - igualmente vítimas da jararaca, também em Santo Amaro, e, como Daiane, socorridas tardiamente por desinformação dos médicos.
De acordo com a mãe da criança, Cecília Batista, após ser picada pela cobra, a menina foi levada para um hospital na zona sul, onde o médico que a atendeu achou o caso sem importância e recomendou que elas voltassem para casa. Como o estado de Daiane se agravou, os pais da garota a levaram para outro hospital onde, em vez de ser ministrado o soro, o que seria o procedimento correto, a criança foi mantida sob observação. Só quando a menina entrou em choque, foi levada ao Butantã. Mas já era tarde demais, disse a diretora do hospital, a infectologista Fan Hui Wen.
As outras duas crianças - uma menina de nove anos e um garoto de seis - foram atendidos em hospitais da zona sul, onde também a aplicação do soro foi postergada. E, embora os dois tenham sido encaminhados tardiamente para o Butantã, ainda houve tempo para que o antídoto surtisse efeito e pelo menos a vida das crianças será salva, garante a equipe do Hospital Vital Brasil.
As estatísticas do Butantã indicam que cerca de 250 acidentes causados por jararacas ocorrem apenas na Grande São Paulo a cada ano. Nenhum deles deveria levar a vítima à morte. Se o soro antiofídico for aplicado até três horas depois da picada, a recuperação é total, e se houver uma demora de até dez horas, pelo menos a vida é salva, embora possa restar alguma sequela. As outras cobras venenosas existentes na região, cascavel e coral, são muito menos numerosas e raramente provocam acidentes.
Para os especialistas, uma morte por picada de jararaca só pode ocorrer quando a pessoa picada estiver no meio do mato, em local de difícil acesso e a busca por socorro demorar mais de um dia. Isso porque hoje há soro disponível em pontos em todo a país, o que reduziu o índice de mortes por picada de jararaca a 0,3%.
Os três casos das crianças picadas em São Paulo só se explicam pela falta de orientação dos médicos recém-formados, que não têm aulas sobre acidentes com animais peçonhentos na maioria das faculdades de Medicina.
No caso da menina Daiane, o médico do hospital que a atendeu, na zona sul, mandou a menina para casa porque não percebeu sintoma algum de envenenamento. Ele não sabia que os sinais demoram a aparecer e que havendo certeza da existência de uma picada de cobra venenosa, o soro deve ser aplicado, afirma a médica Fan Hui.
O caso da menina Daiane Suellen Batista vai ser transformado em denúncia formal junto ao Conselho Estadual de Saúde e ao Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremesp). A iniciativa é do departamento jurídico da Associação de Defesa dos Usuários de Saúde (Adeus), entidade criada há um ano em substituição ao SOS Erro Médico.


