Japão tem recorde de dekasseguis
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sábado, 30 de junho de 2001
Eduardo Nunomura Agência EstadoDe São Paulo 
Nunca houve tantos brasileiros morando no Japão. São 254.394 pessoas. Esse contingente supera a população inteira de Limeira, no interior paulista. Ou a de Governador Valadares, em Minas. Mais uma vez, o fator responsável por esse crescimento são os dekasseguis, imigrantes descendentes de japoneses que saem do Brasil para ganhar a vida no outro extremo do planeta. Só há mais brasileiros vivendo fora do País nos Estados Unidos e Paraguai.
Esse recorde histórico acaba de ser divulgado pelo Ministério da Justiça japonês. Os brasileiros são a terceira maior força de trabalho estrangeira no Japão. Perdem só para os coreanos e chineses. O fenômeno dos dekasseguis começou depois que o governo aprovou uma emenda, em junho de 1990, para facilitar a entrada de mão-de-obra de outras nações. Em 1989, havia 15 mil brasileiros no arquipélago; em 1991, já eram 120 mil; e cinco anos depois, 201 mil.
Esse crescimento surpreende porque a economia japonesa não vai bem. Há quase 3,5 milhões de desempregados. Com a crise, até os japoneses começam a disputar as vagas nas fábricas de eletroeletrônica, alimentos, automóveis e construção civil. Apelidavam de 3 Ks, serviços pesados (kitsui), sujos (kitanai) e perigosos (kiken) - os brasileiros somaram outras duas características: exigentes (kibishii) e detestáveis (kirai).
Segundo dados do ministério japonês, houve um crescimento de 14,43% do número de brasileiros no arquipélago, entre dezembro de 1999 e 2000. Desse total, nem todos saíram do Brasil no ano passado. Nascem por ano no Japão cerca de 6 mil crianças filhas de dekasseguis. No ano passado, o Consulado japonês em São Paulo emitiu 45.370 vistos. O crescimento foi de 61,6%. Para turistas, estudantes, profissionais em treinamentos e outros tipos de atividades, a emissão de vistos caiu.
Há muita gente desiludida com o Brasil. Muitos vão e não voltam mais e só querem saber como fazer para mudar-se de vez para lá, afirma Ricardo Sasaki, consultor jurídico do Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior. As consultas dos dekasseguis ao centro mais que dobrou entre 1999 e 2000.
Ilísia Teruko Kavagouth, de 49 anos, embarcou na quinta-feira para o Japão. É a terceira vez que decide encarar as 24 horas dentro do avião. Além de dois de seus filhos que já moram no arquipélago, sua motivação é ganhar dinheiro. Em sete anos de dekassegui, ela já conseguiu comprar um apartamento de três dormitórios. Voltou para economizar mais.
Os migrantes voltam, sondam e retornam ao Japão. Esse movimento de vai-e-vem torna-se sistemático. Criou-se até uma infra-estrutura que facilita isso, explica a professora Lili Kawamura, autora do livro Para onde vão os brasileiros? (Editora Unicamp).
Uma dessas facilidades, embora nem sempre confiável, são os agenciadores de mão-de-obra no Brasil. Muitas vezes, os dekasseguis ficam reféns deles. As promessas são muitas; as garantias, mínimas. Essa é uma nova preocupação dos serviços consulares e da embaixada brasileira. Antes, com empregos de sobra, o desemprego era impensável. O jornal International Press, um dos três escritos em português no Japão, revelou em seu último editorial os alojamentos apelidados de Carandiru, por causa dos estados precários, e os brasileiros que vivem como ciganos, perambulando nas ruas japonesas em busca de emprego.


