Japão não avançou em sua reforma financeira, diz Greenspan
Washington, 27 (AE-DOW JONES) - O presidente do Fed (banco central americano), Alan Greenspan, afirmou que o desenvolvimento de um sistema financeiro amplo e diversificado no Japão é essencial para a recuperação da economia daquele país
mas que não houve muitos progressos nessa área. "Embora tenha feito alguns esforços importantes, o Japão ainda tem de fazer progressos significativos na diversificação de seu sistema financeiro - que poderia ser um elemento-chave, apesar de não ser o único, para a promoção de uma recuperação no longo prazo"
disse Greenspan durante um seminário ligado aos encontros anuais do Banco Mundial e do FMI, em Washington.
Segundo a Dow Jones, ele não se referiu à política monetária durante a conferência. Para o presidente do Fed, a principal lição da crise asiática é que países com mercados de capital estreitos, nos quais não há alternativa aos bancos, sofrem distúrbios econômicos maiores do que aqueles com mercados financeiros mais diversificados. Ao não agir prontamente, acrescentou, os países aumentam o custo dos esforços para a recuperação. "A ásia não tinha estepe. Os EUA tinham, em 1990 e em 1998. Historicamente, os bancos, sendo instituições altamente alavancadas, têm caído em crises periódicas. Ao não haver um sistema de apoio, eles arrastavam suas economias atrás deles", acrescentou.
Para Greenspan, o exemplo do Japão é útil. Como seu sistema de conglomerados ("keiretsu") torna as empresas muito dependentes dos bancos para crédito, "uma consequência da crise bancária, no Japão, foi um aperto de liquidez". Embora o Banco Central japonês tenha fornecido "liquidez maciça" ao sistema financeiro do país, o volume de crédito bancário não cresceu muito, porque "bancos não emprestam em períodos de instabilidade". "A crise bancária do Japão também deverá ser muito mais cara para resolver do que a norte-americana ou a sueca, o que nos dá novamente evidências de que a diversidade financeira ajuda a limitar os efeitos de choques econômicos". disse Greenspan.
Para o presidente do Fed, outro exemplo "interessante" é o da Austrália. "Apesar de seus laços comerciais e financeiros com a ásia, a economia australiana exibiu poucos sinais de contágio dos países vizinhos. Pode-se dizer que isso aconteceu porque a Austrália já tinha mercados de capital bem desenvolvidos, assim como um sistema bancário vigoroso", disse o presidente do Fed. Segundo ele, o mercado de capitais norte-americano "travou" depois da moratória russa de agosto de 1998, o que levou o Fed a reduzir as taxas de juro de curto prazo em 75 pontos-base, nos quatro meses seguintes, para proteger a economia norte-americana do contágio. Com isso, ressaltou, os mercados norte-americanos recuperaram-se "em questão de semanas". "Embora o afrouxamento pelo Fed tenha sido, sem dúvida, um fator, não é crível que essa seja a única explicação para a dramática recuperação da maioria, se não de todos os mercados, em questão de semanas. O travamento parecia profundamente arraigado demais para ser desfeito tão rapidamente
apenas com uma baixa de 75 pontos-base nas taxas de juro. Pode-se dizer que tão relevante quanto isso foi a existência de instituições financeiras de apoio, em especial bancos comerciais
que substituíram a função de intermediação dos mercados públicos de capital", disse Greenspan.
Ele também disse que países atingidos por crises que agem rapidamente para reformar seus sistemas financeiros tendem a recuperar-se mais rapidamente do que aqueles que se adiam reformas. "Uma solução rápida é positiva, enquanto uma demora pode elevar significativamente os custos fiscais e econômicos de uma crise", afirmou. Ele apontou a diversificação e um sistema de prestação de contas ("accountability") como características de sistemas financeiros bem posicionados para minimizar os efeitos de crises. Para o presidente do Fed, isso significa que os países precisam ter "padrões de contabilidade que retratem com precisão as condições das empresas, sistemas legais confiáveis para proteger a propriedade e o cumprimento dos contratos e regulamentação de falências que dê antecipadamente alguma confiança quanto à forma de solução de conflitos".
Greenspan reconheceu que, ao adotar tais padrões de prestação de contas em seus sistemas financeiros, alguns países emergentes enfrentam obstáculos de natureza histórica ou cultural. "A aversão a perder a face na ásia torna difícil, por exemplo, instituir os procedimentos de falência comuns nos países ocidentais", afirmou. Na Rússia, "a noção de direitos de propriedade está subliminarmente contaminada por uma educação soviética que incutia uma visão altamente negativa de propriedade individual". Ele concluiu que "não é, portanto, simples pendurar uma infra-estrutura financeira a uma economia que se desenvolveu sem ela. A convergência (...) é uma tarefa muito difícil".
Greenspan destacou que os países emergentes precisam superar obstáculos como esses. "Resolver as deficiências nos sistemas bancários domésticos em mercados emergentes ajudará a limitar o prejuízo causado pela próxima turbulência financeira em suas economias reais. Mas se, como eu acredito, a diversidade dentro do setor financeiro provê alguma segurança contra a transformação de um problema financeiro em uma crise econômica, então passos para fomentar o desenvolvimento de mercados de capital nessas economias também é uma tarefa especialmente urgente." A íntegra da conferência de Greenspan está no site do Fed na internet (www.federalreserve.gov).





