Tóquio (AE-AP) - As crianças caem em banheiras cheias dágua. E de suas bicicletas sem capacete. Nos passeios em família, ficam soltos no carro. Todos com resultados fatais. A baixa taxa de crimes e as severas leis de porte de arma ajudam a tornar o Japão um lugar mais seguro que outros países para os adultos. Mas não se pode dizer o mesmo para as crianças.
"Os pais e a sociedade em geral tem pouca consciência com relação aos acidentes infantis", diz Tetsuro Tanaka, do Instituto de Saúde Pública do Japão. "Em termos de segurança o Japão está atrasado."
Um estudo realizado no ano passado por um instituto revelou um dado perturbador: entre 15 nações desenvolvidas, o Japão tem a segunda maior taxa de acidentes infantis fatais e na faixa de idade pré-escolar tal número está acima da média. A Nova Zelândia é o país de maior taxa de acidentes infantis fatais.
O relatório e outros estudos similares têm estimulado algumas ações sobre a questão. Centros de saúde locais estão começando a orientar as mães com dicas de prevenção. O parlamento japonês está elaborando uma lei que exige o uso de assento especial para crianças nos veículos.
No Japão, a segurança é uma alta prioridade. Os locutores nos metrôs alertam, constantemente, os usuários a permanecerem longe da borda da plataforma. Quando as construtoras fazem obras nas calçadas, funcionários com bastões de neon orientam o caminho aos pedestres. Mas quando se trata das crianças, os japoneses são omissos.
As crianças não usam capacetes quando andam de bicicletas. Frequentemente, elas são vistas nos carros sentadas no banco da frente - muitas vezes sem o cinto de segurança, quanto mais numa cadeira especial. "Não estamos acostumados com essas cadeiras para crianças", diz Mariko Shobayashi, 29 anos, num parque em Tóquio.
As apertadas casas japonesas também estão cheias de pequenos perigos. As escadas são construídas em ângulos muito íngremes. As banheiras - no topo da lista de acidentes infantis no país - são, em geral, fundas, cercadas por uma baixa saliência onde crianças entre um e três anos podem facilmente tropeçar.
O estudo do Instituto de Saúde Pública, baseado em dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 1995, revelou que de cada 100 mil crianças japonesas com menos de um ano 28,8 morrem vítimas de acidente. Um número muito acima da média da Noruega (3,4), que possui a menor taxa, e mesmo dos Estados Unidos (20 1).
Na faixa de crianças entre um e quatro anos a média japonesa é um pouco melhor, para cada 100 mil crianças 11,1 morrem de acidente - nesse quesito o Japão ocupa a 11ª colocação na pesquisa realizada em 15 países. A Suécia é o país mais seguro com uma taxa de 5,6 mortes. Os Estados Unidos (15,9) estão na 14ª colocação e a Nova Zelândia (21,6) em último lugar.
Outro estudo japonês, de menor abrangência, revelou alguns hábitos domésticos comuns que são particularmente perigosos para as crianças: cigarros acesos e outros pequenos itens em locais de fácil alcance, costume de deixá-las na cama sem supervisão, manter a água (commodity cara no Japão) na banheira por 24 horas para ser reutilizada no banho e na lavagem de roupa.
O Japão ainda tem uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo, mas a compreensão de que o país pode ser inseguro para as crianças tem sido um choque.
De acordo com Tanaka, do Instituto de Saúde Pública, se por um lado os pediatras trabalham duro para curar os doentes, por outro, os mesmos não vêem a prevenção - de doenças ou acidentes - como parte de seu trabalho.
"Alguns pediatras chegam mesmo a dizer aos pais que as crianças podem aprender com os acidentes", disse Tanaka. "Os médicos estão começando a compreender que a taxa de acidentes fatais está elevada no Japão", completou. Movimentos para reduzir essa estatística estão ganhando força no país nos últimos anos.
Em 1996, foi inaugurado o Centro de Prevenção de Acidente Infantil no distrito de Ikebukuro - região central de Tóquio). No Centro, foi montado um modelo em pequena escala de um apartamento - que mostra aos pais os pontos de risco e como evitar acidentes em suas casas.
Uma fita mantém a porta da geladeira fechada e as pontas das quinas da mesa de jantar são cobertas por pequenas espumas. Um portão de plástico bloqueia a entrada da escada.
Yukiko Okuma, que ajudou a fundar o Centro, disse que a idéia surgiu a partir de um estudo realizado há 10 anos sobre os acidentes infantis nas redondezas do distrito. "Descobrimos que havia muitos acidentes desse tipo", afirmou.
Contudo, a consciência com relação aos perigos presentes na vida cotidiana das crianças japonesas ainda tem de ser absorvido por muitos pais. Mariko Shobayashi e outras mães entrevistadas num parque de Tóquio parecem mais preocupadas com ameaças externas - como crimes - do que com os perigos mais comuns que espreitam suas próprias casas.
"Eu não me preocupo muito com acidentes", disse Kyoko Hosokoshi, 36, enquanto sua filha de 5 anos anda de bicicleta pelo parque. "Eu fico mais preocupada com sequestros. Eu nunca a deixo fora de minha vista", conclui.

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