Washington, 26 (AE) - Com a taxa de juros já negativa, o governo de Tóquio imprimirá mais ienes e criará um pouco de inflação para convencer os japoneses a poupar menos, consumir mais e, desta maneira, estimular pelo lado da demanda o crescimento que retornou à economia do país no primeiro semestre
depois de quase uma década de estagnação.
Em troca, os Estados Unidos e os demais países do Grupo das Sete nações mais industrializadas sinalizaram sua disposição de intervir no mercado de câmbio. Os ministros aplaudiram, num comunicado, a disposição do executivo e do Banco Central do Japão de agirem para desvalorizar o iene. Mas avisaram que continuarão "a monitorar os desdobramentos nos mercados de câmbio e cooperar quando for apropriado".
A aposta por trás de ambos os movimentos, anunciados no final da reunião dos ministros das finanças e presidentes dos bancos centrais do G-7, em Washington, na noite do sábado, é convencer o mercado a parar de apostar contra o dólar, que se desvalorizou 15% desde maio em relação ao iene, e conter a valorização da moeda do Japão, que pode sufocar a nascente recuperação da economia do país.
A turbulência no mercado de moedas está no centro das preocupações dos banqueiros e autoridades econômicas de mais de 180 países que estão em Washington para a reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, que começará amanhã.
A abertura do encontro foi precedida pelas deliberações do Comitê Interino do FMI, que provavelmente se reuniu com esse nome pela última vez. O foro de 24 países, que representa os 183 países membros do FMI e orienta as decisões da instituição, será rebatizado de Comitê Monetário e Financeiro Internacional e ampliará seus poderes de supervisão do sistema. A mudança é parte da reforma para do sistema financeiro que vem sendo discutida desde a crise financeira da ásia, em 1997.
Como parte da reforma, o G-7 decidiu também formalizar a criação, em dezembro próximo, de um novo foro informal de discussão entre países para detetar e prevenir as crises financeiras. Embora o formato final do novo grupo ainda esteja em discussão, fontes oficiais disseram que ele deverá ter vinte membros: os países do G-7, as onze economias emergentes de maior peso (Brasil, Africa do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Coréia do Sul, China, Índia, México, Rússia e Turquia), um representante da União Européia e outro do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.
Apesar do tamanho de sua economia e população, a Indonésia foi excluída como punição por seu comportamento em Timor Leste. "O foco do G-20 será traduzir traduzir os benefícios da globalização em aumento de renda e melhores oportunidades para as pessoas em todas as partes", disse o ministro das Finanças do Canadá, Paul Martin, que será o presidente do grupo nos próximos dois anos.
Uma outra questão importante da reunião anual do FMI e do Banco Mundial é a crise financeira do Equador. O país andino pode entrar em situação de "default" no pagamento de suas obrigações externas entre segunda e terça-feira, com o apoio tácito do Fundo Monetário Internacional, para forçar seus credores privados a uma renegociação.
Banqueiros advertiram nos últimos dias que um calote pelo Equador poderia encarecer ou dificultar o acesso a capitais externos em toda a América do Sul.
Outra preocupação latente é o efeito do bug do ano 2000 sobre operações financeiras em alguns países que não atualizaram suas redes de computadores. Na semana passada, o FMI anunciou a criação de um fundo de contingência para tratar do problema, se ele se manifestar na virada do ano.
Mas a continuação da pressão contra a moeda norte-americana, alimentada pelo crescente déficit do balanço de pagamentos dos Estados Unidos, e seus reflexos são vistos pelos analistas como o maior risco para a economia mundial. O assunto está na capa da revista The Economist desta semana.
O temor é que a continuação da desvalorização do dólar, que já está próximo da zona perigosa de 100 ienes, leve o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, a elevar os juros para conter as pressões inflacionárias geradas pela depreciação e poderia levar pânico a Wall Street, onde as turbulências no mercado de câmbio fizeram o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York desabar 10% nos últimos 30 dias.
Em seu discurso de despedida na reunião do G-7, o presidente do banco central da Alemanha, Hans Tietmeyer, lembrou que intervenções no mercado de moedas raramente funcionam. Numa referência indireta aos EUA, ele fez uma advertência sobre "as bolhas econômicas", nas quais a subida espetacular dos preços das ações leva as pessoas a gastar mais do que têm e alimenta um crescimento insustentável.

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