Jamelão será tema do enredo da Mangueira em 2001; escolha já provoca discussões
Jamelão será tema do enredo da Mangueira em 2001; escolha já provoca discussões9/Mar, 18:12 Por Roberta Jansen Rio, 09 (AE) - Um dos mais famosos e conceituados puxadores de samba-enredo de todos os tempos, o cantor e compositor Jamelão, de 86 anos, será o enredo do carnaval de 2001 da Mangueira - escola que defende há pelo menos 50 anos. A homenagem da escola, no entanto, desagradou ao próprio cantor e já está causando polêmica dentro da comunidade. "Não vai ter nada disso", afirmou Jamelão, com o mau-humor que lhe é peculiar, segundos antes de bater o telefone, se recusando a dar entrevista. Em entrevistas dadas anteriormente, o cantor chegou a dizer que se virasse enredo deixaria a escola. O presidente da Mangueira, Elmo José dos Santos, não levou a sério as ameaças de Jamelão, creditando-as a seu temperamento difícil. "Isso é parte do show dele, é charme", garantiu. "O enredo já está decidido e ele vai acabar aceitando". De acordo com a vice-presidente da agremiação, Célia Regina Domingues, o presidente da escola conversou com Jamelão antes de anunciar publicamente o enredo. "Ele gosta de dizer que não gosta". Duas das mais importantes figuras da escola, dona Neuma e dona Zica, não aprovaram o enredo e sugeriram o nome do compositor Lupicínio Rodrigues para o desfile do próximo ano. "Acho que Jamelão não é um bom enredo e que a Mangueira vai quebrar a cara de novo", afirmou dona Zica, viúva de Cartola. Dona Neuma foi ainda mais enfática. "O Jamelão não quer e nós também não queremos", disse. "Ele não é uma figura simpática ao povo". Na avaliação de dona Neuma, o mau-humor crônico de Jamelão pode prejudicar a escola. O pesquisador de música popular Ricardo Cravo Albim discorda das primeiras-damas da escola. "Jamelão sempre foi resmungão, mau-humorado e genial", resumiu. "Acho que pode dar um belo enredo se for desenvolvido com categoria". Segundo Albim, o cantor tem uma voz perfeita em timbre, afinação e qualidade. "Ele foi o primeiro grande intérprete de samba-enredo e, por mais estranho que pareça, consagrou-se como cantor de samba-canção". Jamelão nasceu José Bispo Clementino dos Santos, em 12 de maio de 1913, no bairro de São Cristóvão, na zona norte. Aos nove anos era vendendor de jornal e começou a frequentar a quadra da escola. Seis anos depois já tocava tamborim na bateria da Mangueira. "Entre 1949 e 1950 ele tornou-se o intérprete oficial dos sambas-enredo da escola", afirmou Albim. Paralelamente, Jamelão fez carreira como cantor de samba-canção, gravando grandes sucessos dos anos 50, como "Exaltação à Mangueira", "Ela Disse-me Assim" e Folha Morta" - foi nessa época, em uma gafieira do Méier, que ganhou o apelido que o consagraria. "Ele foi um intérprete insuperável de Lupicínio Rodrigues e gravou discos memoráveis à frente da Orquestra de Severino Araújo". Além de ser mau-humorado, Jamelão tem várias manias que já se tornaram célebres no mundo do samba. Anda sempre com elásticos nas mãos. Nos bolsos, leva uma caixa de reserva, para o caso de algum arrebentar. Não admite, por exemplo, que o chamem de puxador. 'Puxador é quem fuma maconha ou rouba carro; sou intérprete', costuma dizer. Quando perguntam a ele sobre sua preparação para enfrentar uma hora e meia de desfile, é enfático: "eu chego e canto". Foi com essa disposição que sempre defendeu a Mangueira mesmo no carnaval de 1990, quando desfilou acompanhado de um médico.





