Washington, 04 (AE-ANSA) - A ex-primeira dama norte-americana Jacqueline Kennedy reabriu o diálogo entre os Estados Unidos e a Rússia, poucos dias depois do funeral do seu marido, com uma carta ao presidente soviético, Nikita Kruschev, em que pedia ao líder comunista que salvasse a paz. "Salvemos a paz, é o que pede uma pobre viúva", escreveu Jackie Kennedy a Krushev, de acordo com documentos secretos que o presidente russo, Bóris Yeltsin, entregou ao seu colega Bill Clinton, durante a última reunião entre ambos realizada em junho passado, em Colonia, Alemanha. O legado completo será divulgado nos próximos dias pelos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos. Contudo, já circulam na mídia algumas informações. Por exemplo, Jackie Kennedy agiu sem consultar o novo presidente, Lyndon Johnson, e sem esperar o resultado dos contatos que o secretário de Estado, Dean Rusk, havia iniciado com as autoridades soviéticas imediatamente depois do assassinato. Um telegrama secreto enviado ao Kremlin pela embaixada em Washington informava sobre a iniciativa da primeira-dama, que se aproximou de dois funcionários soviéticos durante o funeral do presidente e "ratificou o desejo de paz" de seu marido. Os governos soviético e o norte-americano, dizia a carta de Jackie, deveriam encontrar uma maneira de "levar até o fim a aproximação lançada pelo presidente Kennedy". O fato ocorreu em 25 de novembro de 1963 e Jackie Kennedy preparava-se para deixar a Casa Branca. Seu marido, assassinado três dias antes em Dallas, tinha sido sepultado naquela manhã. Ao luto da primeira-dama, somava-se a angústia de todo o mundo. O assassino, Lee Harvey Oswald, tinha morado durante um longo período em Moscou. O presidente Johnson e o diretor do FBI, Edgar Hoover, suspeitavam que Oswald poderia estar ligado com o serviço secreto soviético. Os Estados Unidos e a União Soviética estavam caminhando para um confronto. Uma semana depois do funeral, Jackie Kennedy mandou ao presidente Kruschev uma carta escrita de próprio punho. Era um apelo pessoal ao "autocontrole e a moderação" já demonstrados por Kruschev nos períodos mais tensos da presidência de Kennedy, quando da fracassada invasão da baía dos Porcos e da crise dos mísseis em Cuba. Ao serem colocados à disposição dos Arquivos Nacionais, os documentos foram traduzidos e analisados por especialistas do Departamento de Estado. Entre eles, está um informe da KGB - serviço secreto soviético -, datado de poucos dias depois do assassinato de Kennedy, em que o órgão define como "difamação sistemática" a hipótese levantada pela imprensa norte-americana de que a União Soviética poderia ter alguma responsabilidade na conspiração. Por sua vez, os agentes de Moscou acusaram as autoridades norte-americanas de ter lançado tais rumores para "esconder os verdadeiros assassinos". Outro documento dizia que a KGB sempre considerou Lee Oswald como um provocador e que o órgão havia manifestado sua oposição aos seus pedidos para tornar-se cidadão russo ou, pelo menos, de obter asilo político na União Soviética. Outros documentos sugerem que quando Jackie Kennedy escreveu a Kruschev, o Kremlin já estava seguro de que as relações com os Estados Unidos continuariam "como de costume". Uma nota do Ministério das Relações Exteriores da União Soviética registrava com satisfação os "contatos de alto nível" iniciados pelo governo norte-americano imediatamente após a morte de Kennedy, para evitar um confronto. O secretário norte-americano, Dean Rusk, havia se apressado em tranquilizar a embaixada soviética, assegurando que as negociações para a limitação do arsenal nuclear de ambas as nações não seriam prejudicadas pelo crime ocorrido em Dallas. No entanto, era necessário acelerar o diálogo porque o mundo esperava um sinal de paz.

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