Jacaré é caçado e morre após cirurgia
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sábado, 24 de maio de 1997
Lúcio Horta 
Josoé de CarvalhoCorpo de delitoProfessores e alunos do Hospital Veterinário fazem necrópsia do jacaré que morreu após engolir isca: preocupação com a espécie Jacarés, capivaras, cobras e aves de diversas espécies. Esses animais, quando não encontram mais condições de sobrevivência em seu habitat natural e procuram a cidade para buscar alimentos, quase sempre têm o mesmo destino: a morte. Os motivos também são quase sempre os mesmos: a ignorância e falta de noção ecológica de grande parte dos moradores das cidades. Eles matam o animal ou por um medo injustificado, ou por divertimento, ou porque acreditam que vão levar alguma vantagem com o que sobrar do animal.
O caso de um jacaré encontrado na última quarta-feira, numa represa de Apucarana (a 50 quilômetros de Londrina), é típico. Ele havia engolido uma isca que não poderia ter outra finalidade senão caçar jacaré. Era um anzol grande, preso a um cabo de aço com bóia e fisgado num pedaço de carne. Chamados por um morador, no começo da noite, os bombeiros recolheram o animal e o levaram na manhã seguinte ao Hospital Veterianário (HV) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O jacaré chegou ao hospital ainda com vida. Era do sexo feminino, tinha aproximadamente dois anos de idade, pesava 27 quilos e media 1,75 metros. Uma equipe do HV tentou salvá-lo através de cirurgia, para retirada do anzol. A operação durou cerca de três horas e foi necessário aplicar anestesia geral. Da sala de cirurgia, o jacaré foi encaminhado para uma sala com temperatura do habitat natural. Mas, por volta das 23 horas de quinta-feira, ele não resistiu aos ferimentos e morreu.
Em vista do estado geral e da localização do anzol não foi possível salvar o animal. Se sobrevivesse, era possível que retornasse à natureza, lamentou a professora Carmen Hilst, do departamento de Clínica Veterinária da UEL. Ela operou o animal ao lado da anestesista Josimari Pirolo e residentes de Veterinária.
Segundo a professora, a pessoa que quis caçar o jacaré poderia aproveitar-se apenas do couro e da carne do animal - na verdade, um pequeno pedaço próximo à cauda poderia ser usado na alimentação. E se a pessoa quis se alimentar, existem meios mais nobres para isso.
Carmen Hilst observa que, ao contrário da região Norte do País, hoje em dia é raríssimo o aparecimento desse tipo de animal no Paraná. Por isso, é importante preservá-lo, nunca matá-lo. É preciso fazer um alerta para essas pessoas. Se alguém chegar a encontrar o jacaré, por exemplo, que encaminhe ou comunique a Polícia Florestal, Ibama ou um orgão responsável, informa.
Apesar de não ter sido salvo, o jacaré caçado em Apucarana, pelo menos, poderá contribuir para a preservação da espécie. Ainda na sexta-feira ele foi necropsiado, para que a equipe do HV pudesse conhecer as lesões que levaram o animal à morte. Depois, ele será empalhado e encaminhado para a Polícia Florestal, onde será usado em trabalhos de conscientização ecológica.
Josoé de CarvalhoAnzol fatalA radiografia: socorro em vão
O surgimento do jacaré em áreas urbanas, segundo a professora Carmen Hilst, pode ter duas hipóteses. A primeira é que o jacaré tenha origem na região e chegue a Cidade através da comunicação de algum rio. Ainda existem alguns jacarés no rio Tibagi, por exemplo.
A outra hipótese é que o animal seja trazido do Pantanal, no Mato Grosso, e depois solto em pequenos lagos ou represas. Tem gente que traz o jacaré pequeno para mantê-lo em cativeiro. Mas aí ele cresce, a pessoa perde o controle ou o interesse pelo animal e, então, joga no lago.
O surgimento de jacarés no lago Igapó também é típico: o lago não apresenta contato direto com um grande rio, que pudesse trazer o jacaré para a Cidade. Vira e mexe, no entanto, o bicho aparece nas águas do lago.
Por isso, aponta Carmen Hilst, a frequência de animais silvestres encaminhados ao HV, inclusive jacarés, é muito alta. Infelizmente, eles chegam machucados e nem sempre é possível salvá-los. Somente o stress causado pela perseguição já pode levar o animal à morte. É um problema grave de falta de conscientização. As pessoas precisam saber que existe quem pode cuidar desses animais e é importante a preservação.


