'Já tretei muito com os malucos da rua'
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sábado, 27 de dezembro de 2014
Diego Prazeres<br>Reportagem Local 
Londrina - Dentes sobressaltados e apodrecidos, pele e osso, Daniele aparenta ter bem mais do que os 25 anos que diz ter. Há algum tempo, seu refúgio é um mocó com parede de papelão e um colchonete que ela instalou num buraco entre o viaduto da Avenida Brasília e a Avenida Luigi Amoresi, na zona oeste. O cheiro de urina é forte. Ressabiada, poucas palavras, Daniele conta que fica ali boa parte do tempo para consumir droga. Crack. "Pra nós não é caro, não", comenta.
A reportagem pergunta se ela já sofreu algum tipo de violência nas perambulações pelas ruas da cidade, se não tem medo de viver ao léu. "Já tretei muito com os malucos que ficam nas ruas. Sabe como é, a gente que é 'noiado' tá sempre assustado, mas tô mais sossegada", afirma.
Da polícia, Daniele diz que nunca apanhou. Vive ao relento por opção. "Eu tenho contato com a minha família, não sou totalmente abandonada. Eles moram no (Jardim) Bandeirantes (zona oeste), vou lá de vez em quando, mas não quero morar com eles não", diz. Dois dos sete filhos moram com uma irmã no Bandeirantes. Os outros, diz Daniele, "foram doados".
Perto dali, em uma vasta área que margeia a Avenida Brasília, a copa do pé de mangueira acolhe o barraco do catador de papel Orlando Francisco de Lima, de 49 anos. Boca Preta, uma alegre vira-lata que ele conheceu na rua, é a sua companheira. Orlando diz que ficou sabendo do indigente esfaqueado na praça da Avenida Tiradentes, mas garante que desde que veio a Londrina, há cerca de quatro meses, jamais foi vítima de agressão ou se envolveu em confusão. "Eu não moro em praça, não me misturo com morador de rua. A maioria toma pinga, e quando a pessoa fica alterada, sai de si. Tenho que usar a inteligência, vou ficar com quem não quer nada?" afirma ele, com os olhos avermelhados.
Pai de um adolescente de 13 anos que mora com o irmão em Rancharia (Norte), Orlando conta que tem alguns parentes em Alvorada do Sul (Região Metropolitana de Londrina), sua cidade natal. Cata papelão e material reciclável com um carrinho que ele diz ter comprado em duas prestações. Vende o que recolhe nas ruas para um depósito. A cama, que fica do lado de fora do barraco, foi doada. Comida, Orlando diz que quando não compra ganha "dos meus amigos crentes". É outro que refuta a vida sob um teto. "Eu não quero incomodar meus parentes." Preferiu seu cantinho na mangueira às marquises e praças "porque aqui não perturbo a sociedade".


