Otan expande bombardeios; kosovares "mortos" estão vivos. Por Douglas Hamilton
Bruxelas, 31 (AE-REUTERS) - A Otan anunciou hoje (31) que estava intensificando seus bombardeios contra a Iugoslávia enquanto mais aterrorizados albaneses fugiam de Kosovo e tropas sérvias estariam, segundo noticiado, se aproximando de uma grande concentração de refugiados dentro da província.
A aliança descartou qualquer pausa na Páscoa em seus ataques aéreos, com o general da Otan Klaus Naumann insistindo que seria "profundamente desumano" dar ao presidente Slobodan Milosevic liberdade para continuar sua ofensiva em Kosovo.
Mas dois líderes albaneses étnicos que a Otan afirmava terem sido executados a sangue frio por forças de segurança iugoslavas estão vivos, garantiram diplomatas dos Estados Unidos e kosovares.
A Rússia alarmou Washington ao anunciar que estava enviando um navio da Marinha para o Mediterrâneo e que poderia despachar outros seis.
O Vaticano informou que o papa João Paulo Segundo iria enviar seus ministro do Exterior, arcebispo Jean-Louis Tauran, a Belgrado nesta quinta-feira com uma mensagem para Milosevic.
A aliança ocidental afirmou ter destruído ou danificado seriamente cerca de 30 aviões de guerra iugoslavos. A Otan também anunciou ter atingido um campo de pouso, uma guarnição do exército, um quartel de uma brigada aerotransportada e uma sede da polícia militar na Sérvia.
Um porta-voz da Otan disse que o secretário-geral Javier Solona tinha autorizado aos militares "expandir a amplitude e tempo das operações para maximizar a efetividade da campanha".
Diplomatas ocidentais nos Bálcãs afirmaram que forças sérvias com tanques e artilharia pesada haviam superado guerrilhas albanesas étnicas tentando defender o Vale de Pegarusa, no centro de Kosovo, onde cerca de 50.000 refugiados estariam abrigados.
"O ELK resistiu mas pelo que pude saber eles foram explodidos por tanques T-55. Não existe mais nada entre os civis abrigados no vale e os sérvios. Existe obviamente o potencial para uma grande tragédia", disse um diplomata com frequentes contatos com o Exército de Libertação de Kosovo (ELK).
O vale, cerca de 50 km a sudoeste da capital kosovar de Pristina, não fica perto de fronteiras internacionais e não existe uma fácil rota de fuga.
A Casa Branca sugeriu hoje que os ataques aéreos da Otan contra a Iugoslávia é uma campanha sem prazo para terminar.
"Não temos uma agenda firme para isto", disse um porta-voz. "Ou Milosevic muda seus cálculos ou vamos contínua e sistematicamente atingir seu exército e privá-lo da capacidade de impor sua vontade".
A agência de notícias da Iugoslávia, Tanjung, divulgou que a Otan lançou bombas de fragmentação nos arredores da segunda maior cidade de Kosovo, Pec, atingindo uma zona residencial habitada apenas por sérvios. Bombas de fragmentação são proibidas por tratados internacionais de guerra.
Um porta-voz da Otan afirmou que apesar dos fortes ataques aéreos, as forças sérvias ainda estavam expulsando albaneses étnicos de Kosovo e destruindo arquivos públicos.
Mas diplomatas dos EUA e fontes kosovares disseram que dois líderes albaneses de Kosovo que segundo um porta-voz da Otan tinham sido sumariamente executados no fim de semana - Fehmi Agani, um veterano político que participou das conversações de paz de Rambouillet, e Baton Haxhiu, editor do jornal Koha Ditore - estão na verdade vivos.
O Centro de Imprensa, administrado pela Sérvia, em Pristina divulgou que o "presidente" albanês de Kosovo, Ibrahim Rugova, que segundo notícias estaria desaparecido, também está vivo e sob proteção da polícia sérvia.
Refugiados chegando nas vizinhas Albânia, Macedônia e Montenegro contaram terem visto parentes e conhecidos serem mortos a sangue frio.
Muitos afirmaram que tropas sérvias tiraram deles documentos de identidade e mesmo placas de carros para privá-los de provas que são cidadãos iugoslavos e evitar que voltem.
O número de refugiados que já cruzaram montanhas geladas e chegaram na Albânia se aproxima de 100.000 e o fluxo não mostra sinais de diminuir. A Albânia pediu ao Ocidente para enviar urgentemente ajuda humanitária.
Cerca de 125.000 pessoas já fugiram de Kosovo desde o início dos ataques da Otan, informou a agência de refugiados das Nações Unidas, Ancur. Centenas de milhares mais teriam ficado desabrigados.
Centenas chegaram de trem à fronteira da Macedônia, dizendo que forças sérvias os forçaram com armas a entrarem nos vagões sem água e comida.
Em Belgrado, mais e mais pessoas apareceram com alvos de papéis pregados em suas roupas, não impressionados com a insistência da Otan de que as bombas visam apenas os militares iusgoslavos, não civis.
Uma rádio independente de Belgrado divulgou que bombardeios da Otan nos arredores da cidade mataram oito pessoas, civis e militares, e feriram 22.
Belgrado afirmou que suas forças em Kosovo estão meramente respondendo à agressão de guerrilheiros separatistas albaneses e da Otan, a quem acusa de violar o direito internacional, patrocinar o terrorismo e buscar o desmembramento da Sérvia.
Segundo o chanceler russo, Igor Ivanov, o objetivo de enviar o navio para o Mediterrâneo é "colher informações", diante das insinuações dos EUA de que pretendem separar Kosovo da Iugoslávia, alterando a política adotada pelo Grupo de Contato autonomia sem independência.
O presidente Bill Clinton já havia admitido a hipótese na terça-feira, no caso de persistir a "brutal campanha de limpeza étnica" do presidente Slobodan Milosevic contra a maioria de origem albanesa da província.
Hoje, o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart, voltou a advertir Belgrado: "Se a repressão continuar, a população local pode radicalizar de tal forma sua posição que será impossível à Sérvia manter Kosovo."
Em Washington, os EUA ocuparam a embaixada da Iugoslávia e a residência do embaixador e embarcaram os diplomatas em um avião com destino a Belgrado.

mockup