Iugoslávia diz-se disposta a conceder autonomia a Kosovo
Paris, 05 (AE) - Na véspera da abertura da conferência de paz - marcada para amanhã (06) no Castelo de Ramboulliet, nas proximidades da capital francesa -, o governo da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) informou nesta sexta-feira (05) estar disposto a conceder um status de autonomia à província de Kosovo
cuja maioria esmagadora da população é muçulmana de origem albanesa.
"Vamos aceitar princípios internacionais, entre os quais está a autonomia, mesmo que esta seja substancial", destacou o ministro iugoslavo da Informação, com uma ressalva: "Rejeitaremos fatos consumados."
O ministro não deu detalhes sobre o tipo de autonomia que será oferecida a Kosovo. Os sérvios opõem-se radicalmente à transformação de Kosovo em uma republica iugoslava, com os mesmos direitos da Sérvia e Montenegro.
A delegação sérvia de 13 membros é chefiada pelo vice-primeiro-ministro sérvio Ratko Markovic. O grupo albanês étnico é composto por 16 pessoas, das quais cinco integram a organização guerrilheira Exército para a Libertação de Kosovo (ELK).
As autoridades sérvias classificam os militantes do ELK de terroristas e recusam-se a debater a paz com eles. Hoje, impediram o embarque dos representantes do ELK para Paris.
As delegações têm 15 dias para chegar a um acordo.
Elas partem de interesses diametralmente opostos sobre tudo. A Conferência de Rambouillet, pequeno castelo cercado por uma floresta, será aberta pelo presidente Jacques Chirac, que exigirá das partes "um esforço, com autoridade se for o caso, para encontrar uma solução que seja equilibrada e razoável".
Nesta sexta-feira, foram concluídos os preparativos no castelo - ao qual a imprensa não terá acesso. Diversas barreiras estão sendo levantadas nos arredores, para manter os jornalistas longe dos delegados e evitar que interfiram nas discussões.
Patrocinador do encontro, o Grupo de Contato (formado por Estados Unidos, Rússia, França, Grã-Bretanha, Itália e Alemanha) ainda não havia estabelecido à noite um texto básico para a pauta do debate. Várias versões circulavam sem que se pudesse chegar a um resultado prático. Um dos textos mantinha a base do que fora decidido anteriormente. Previa uma substancial autonomia para Kosovo e atribuia aos delegados apenas o debate sobre detalhes de sua aplicação.
Essa proposta muito provavelmente será rejeitada pelos participantes.Nesse caso, 85% do projeto não seria negociável e não haveria nenhuma margem de manobra para a discussão de alguns dos aspectos fundamentais.
Segundo fontes do Ministério do Exterior britânico, o texto prevê eleições dentro de nove meses para escolher os poderes representativos da população (mais de 90% de origem albanesa). Essa eleição será supervisionada por observadores estrangeiros, que garantirão liberdade de informação durante a campanha eleitoral e a utilização de uma emissora de rádio montada pelos franceses. Os administradores eleitos terão ampla autonomia, não apenas política, mas também judicial, econômica e social. Um aspecto fundamental da proposta é o do controle da polícia, hoje nas mãos dos sérvios. Esse organismo será radicalmente reestruturado nos próximos três anos. Depois de um período de autonomia, pergunta-se até que ponto a porta será aberta para uma verdadeira independência de Kosovo.
Os russos admitem o princípio, mas só o apoiariam se os sérvios estivessem de acordo, o que não é o caso.
Na "autonomia substancial" citada pelo governo de Belgrado não existe a palavra independência.
De qualquer forma, os governos ocidentais estão satisfeitos por conseguir reunir face a face os representantes do presidente Slobodan Milosevic e os rebeldes do ELK, o Exército para a Libertação de Kosovo, em Rambouillet, nessa conferência que será co-presidida por França e Grã-Bretanha.
Por enquanto, a saída do encontro de Rambouillet continua sendo uma incógnita, diante de posições tão afastadas.
De qualquer forma, essa crise em Kosovo marca o malogro da política do nacionalismo sérvio do presidente Slobodan Milosevic.





