Iterj vai recuperar 33 fazendas históricas no Rio de Janeiro
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quinta-feira, 29 de julho de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 30 (AE) - Quando a febre amarela aumentava durante os verões do Rio do século passado, a família real e os nobres mais abastados da capital fugiam para Petrópolis. O frio da serra os protegia do mosquito transmissor. Durante a demorada viagem, a parada na Fazenda da Mandioca, na Vila Inhomirim, em Magé, na Baixada Fluminense, era quase obrigatória. Ali, muitos nobres, entre os quais o Barão de Mauá e o próprio imperador Dom Pedro II, costumavam pernoitar.
Pouco mais de um século depois, o imóvel, que pertenceu ao botânico Georg Hennrich Von Longsdoff, cônsul da Rússia no Brasil, não passa de uma construção tomada pelo mato e totalmente degradada. Mas o longo período de abandono parece ter chegado ao fim. O Instituto de Terras e Cartografia (Iterj), vinculado à Secretaria Estadual de Assuntos Fundiários, resolveu recuperar essa e mais 32 fazendas históricas, localizadas em assentamentos rurais do Estado.
Ecoturismo - "Nossa idéia não é apenas restaurar, mas também transformar os sítios históricos em centros sociais e culturais, voltados para o ecoturismo", explica a arquiteta e diretora técnica do Iterj, Edelvira Varella. O projeto será administrado pelos assentados, que terão toda a renda do negócio revertida para a comunidade.
Para a Fazenda da Mandioca, por exemplo, estão previstas construções de pousadas, pavilhões rústicos, restaurantes típicos e organização de roteiros por trilhas históricas, como a visita ao caminho da Princesa - estrada por onde passava a Corte real em direção a Petrópolis. Para isso, o Iterj vai oferecer vários cursos na área de turismo e hotelaria para os assentados."Muitas vezes os filhos de assentados não querem ser agricultores e, com esse projeto, poderemos abrir novas oportunidades de empregos em áreas alternativas", ressalta Edelvira.
Financiamento - A revitalização das 33 fazendas está orçada em R$ 4,9 milhões. Para levantar todo esse dinheiro o Iterj pretende fazer convênios com instituições públicas e privadas. "Ainda estamos na fase de identificação e catalogação dos imóveis", conta a arquiteta. "Depois vamos partir para a busca de parceiros."
Por enquanto foram identificados cinco imóveis - as fazendas de Engenho Novo, Rubião e Mandioca, no Grande Rio; Paratimirim, no sul flumimense; e Conquista, na região do Médio Paraíba. Dessas cinco, três já estão na etapa de catalogação de suas instalações: Engenho Novo, Paratimirim e Mandioca. "Estamos descobrindo histórias incríveis nesse trabalho", diz a arquiteta Bárbara Regina da Silva Guerreiro, funcionária do Iterj e mentora do projeto.
Na Fazenda Engenho Novo, em São Gonçalo, o que chama atenção é a fachada, em estilo colonial e neoclássico. Construída no século 18, ela foi adquirida, em 1830, por Berlamino Ricardo Siqueira, o Barão de São Gonçalo, amigo de Dom Pedro II, que o hospedou muitas vezes. Como toda a região, a Engenho Novo produziu açúcar, depois, café e frutas cítricas.
Católico fervoroso, irmão de muitas ordens religiosas, Siqueira mandou construir uma igreja na fazenda, ao lado da Casa Grande. É possível admirar as 13 flechas que ornamentam a fachada da construção religiosa, que significavam as 13 nações africanas escravizadas pelos portugueses.
As janelas do imóvel, tipo guilhotina, com folhas verticais dobráveis, também são um detalhe à parte: os pigmentos coloridos dos vitrais foram fixados com pó de ouro, que não deixa o material oxidar. "Infelizmente, muitos desses vidros estão quebrados e a restauração não levará o pó de ouro porque sairia muito caro", conta Bárbara.
O principal atrativo da Fazenda Parnamirim, em Parati, é a vista, de frente para a enseada da qual o dono do imóvel tomou o nome. No século passado, o sítio hístórico era um entreposto de escravos. "Há suspeitas de que, mesmo depois da Abolição, alguns navios negreiros clandestinos ainda atracaram ali", afirma Bárbara. Verdade ou não, a casa de teto baixo, onde os escravos recém-chegados eram limpos e expostos à venda continua de pé. No sítio histórico, ainda estão conservadas a casa-sede da fazenda e uma igreja.


