São Paulo, 22 (AE) - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco, garantiu ontem em entrevista ao programa Passando a Limpo, da TV Record, que não mudará de idéia a respeito de seu não-comparecimento à reunião entre governadores e o presidente Fernando Henrique, marcada para sexta-feira. "Acho que a formatação da reunião não é correta, pois no grupo de 27 governadores há os que foram reeleitos e os que assumiram o governo pela primeira vez. Isso já é uma dificuldade, porque os problemas não são os mesmos. Como um homem que chegou há 40 dias pode fazer seu dever de casa tão rápido?", disse.
Governo Federal -Segundo Itamar, pela primeira vez na história recente um presidente da República comunica a organismos internacionais os problemas internos do país, como o problema de Minas Gerais. "A União tem a obrigação de somar com os estados. Não pode nos levar a esta desconsideração no exterior. O governo federal não nos deu nem o direito de dizer aos organismos internacionais porque não pagamos. O governo brasileiro também deixou de pagar suas contas no exterior. Isso é calote? É moratória? Ele simplesmente disse que não pôde pagar porque precisava empregar o dinheiro em outros setores fundamentais", disse.
Relação com o presidente -De acordo com o governador mineiro, quando era embaixador procurou o presidente Fernando Henrique para dizer que surgiriam dificuldades com relação ao câmbio e que era preciso fazer em 1995 as reformas administrativa, política, tributária e fiscal, para que o programa do governo não ficasse ancorado na baliza cambial e monetária. "Ele disse que estava no rumo certo e desde aquele instante eu passei a criticar sua política econômica", afirmou. Apesar disso, Itamar garante que não tem ressentimento quanto ao presidente: "A única coisa que estranhei foi o que aconteceu na convenção do PMDB. O presidente sabia que eu defenderia o lançamento de candidato. Fui desrespeitado, nunca vi tamanha ofensa a um cidadão que ocupava uma tribuna num partido que ele ajudou a fundar. Tentei falar com o presidente e fui informado de que ele estava no cinema. No dia seguinte deparei com aquela fotografia indecente, dele e de elementos do PMDB rindo".
Renegociação da dívida -Itamar Franco disse que o discurso de que a renegociação da dívida de Minas Gerais irá dividir seus encargos com toda a sociedade é balela. "Ao assumir, fiquei estarrecido com a situação em que se encontrava o estado. Só os gastos com pessoal eram da ordem de 94%. O Governo federal sabia o que estava acontecendo em Minas, não foi surpreendido. No dia 28 de dezembro Malan autorizou outra rolagem de dívidas e determinou que o ICMS de janeiro fosse antecipado para dezembro. No dia 2, quando reuni meus secretários, o fluxo de caixa era de R$ 19 milhões. Tenho que pagar R$ 450 milhões da folha de pagamentos de dezembro que não foram pagos, mais R$ 250 milhões em décimo-terceiro. Além disso, o governo anterior, que era apoiado por Fernando Henrique, deixou dívidas com fornecedores e outros serviços no valor de cerca de R$ 3,3 bilhões", disse. O governador afirma que no mesmo dia reuniu seu secretariado e disse a eles que o quadro atual exigia que fosse acertado o pagamento da dívida com o governo federal: "Está escrito no contrato que se a situação macroeconômica sofresse alteração, o governo federal teria que renegociar o contrato. Pedi a meus secretários que ligassem para o ministro Malan e ele não deu sequência a nosso pedido. Eu quero pagar, mas não tenho dinheiro. Se não pagar ao funcionalismo, como os policiais, acontecerá uma crise social no estado. Tentei falar com Malan e não consegui. Se eles não querem ouvir, tenho que decretar a moratória", se explicou.
Reformas estaduais -O governador de Minas Gerais garantiu que está disposto a sanear seu estado. O problema, segundo ele, é que o governo anterior deixou tudo desorganizado e hoje ele não sabe coisas básicas, como o número de funcionários públicos e o patrimônio do estado. "Estou no cargo há apenas 40 dias. Só nestes dias já descobri várias irregularidades. Continuarei analisando a folha de pagamentos e mandei fazer cortes nos gastos com contingente. O que não farei são coisas do tipo cortar salários de funcionários públicos, pois não posso aceitar esta crise social. É fácil dizer que vou mandar muitos funcionários embora, mas isso é justo? As privatizações também não adiantam. No governo anterior, por exemplo, foram privatizados os bancos Benge e Crédito Real. Com estas vendas foram apurados R$ 640 milhões, mas para que elas fossem realizadas o governo precisou gastar mais de R$ 3 bilhões. Não adiantou vender o patrimônio, pois o estado continuou pobre", explicou Negociação -Itamar afirmou ainda poder haver uma negociação com o governo federal, uma vez que haja consenso, compreensão e uma revisão dos contratos. "O que não aceito é o bloqueio ao meu estado. Quem está sentado lá na cadeira do presidente deve ter um sentimento nacionalista e não pode mesquinhar o governo de Minas. Se ele deixar de fazer isso eu converso e os problemas vão se resolver. O mineiro tem a alma nobre, quer diálogo, mas entende que seu estado é muito importante para que discussões menores o prejudiquem".
Futuro do Brasil -Para o ex-presidente, a perspectiva para o futuro do Brasil é má se continuar sendo monitorado pelo FMI: "Este Fundo vai levar o país a uma recessão muito forte. Temos que voltar a crescer, pois o país que não cresce não dá. Este país parou de crescer. O governo transfere o enfoque do setor produtivo nacional para o mercado acionário, e isso é ruim. A política de dar privilégio ao mercado internacional é nefasta. Além disso, é preciso que seja feito um novo pacto federativo, com o qual a União também se comprometa. O sistema federativo do jeito que está já acabou".
Candidatura -Perguntado sobre se pretende se candidatar à presidência do país em 2002, Itamar disse: "Não sabemos do futuro. Só Deus sabe. Só um maluco diria quem será candidato em 2002".
Minas precisa participar das negociações -De acordo com o senador Roberto Freire (PPS/PE), também entrevistado ontem no programa Passando a Limpo, da TV Record, o estado de Minas Gerais também precisa participar das negociações com o governo federal, pois se isso não acontecer todos os outros serão prejudicados. "Um governador como Itamar não pode ficar nesta posição de não-diálogo com o governo federal. Esse apelo é o que todo democrata esta fazendo", disse. Ele concorda que, com a atual taxa de juros e o aumento do déficit, não existe acordo bom no Brasil: "O acordo com os estados foi feito anteriormente à crise". Quanto à política econômica adotada pelo governo, o senador acredita que ela deve ser mudada, pois "não temos que mostrar a organismos internacionais que estamos ajustados em função da concepção deles. Isto está nos levando para uma situação pior. O grande drama que vemos já há algum tempo é que o governo faz política para atender aos interesses internacionais. Acredito que o FMI tem boa fé, mas sua concepção política não resolve, só agrava". Para Freire, não é necessário romper com o Fundo, apenas é preciso mudar sua política: "A crítica que se faz é que a política do fundo é inviável para a atual realidade. Há um consenso hoje entre especialistas de que é preciso se sentar com outros países e discutir se o caminho é esse".

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