Itamar impõe 2 condições para negociar com governo
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terça-feira, 02 de março de 1999
Por Gerson Camarotti 
Brasília, 02 (AE) - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), radicalizou o discurso e endureceu a posição de não conversar com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Em reunião hoje com os senadores do PMDB, Itamar impôs duas condições para que a equipe econômica de Minas Gerais negociasse uma saída com técnicos do governo federal: a certeza da repactuação da dívida estadual e o fim das sanções ao governo mineiro.
O presidente nacional do PMDB e líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), ficou de levar a Fernando Henrique essas propostas. Se tudo der certo, a idéia é nomear uma comissão de senadores para acompanhar as negociações. Mesmo assim, Itamar não está disposto a conversar, em nenhuma hipótese
com Fernando Henrique. "Para que vou conversar com o presidente?", indagou Itamar, demonstrando desprezo. "Eu só ía tomar o tempo dele à toa", completou, com ironia, o governador de Minas Gerais, numa entrevista coletiva concedida no fim da tarde de hoje.
Itamar ficou irritado com as perguntas dos jornalistas. "Por que vocês insistem nessa conversa com o presidente?", reagiu.
Para o governador de Minas Gerais, é preferível que o governo federal encontre uma solução para a situação estadual. "O presidente - com tanta coisa importante para fazer - não pode ficar falando nos números de Minas; mas ele tem de mandar o dr. (Pedro) Malan, ministro da Fazenda, encontrar uma solução, que, para nós, é a repactuação", avaliou o governador.
Ele voltou a falar na "resistência de Minas", palavra de ordem que vêm usando nas últimas semanas. "Nós vamos exercer o direito de resistência, que, ao mesmo tempo, é o direito de nossa sobrevivência", disse Itamar. "Minas tem tradição de trincheiras e a topografia ajuda." Ele descartou, porém, qualquer possibilidade de luta armada contra o governo federal. "Eu não sei nem atirar", brincou Itamar, acrescentando que, caso o governo federal não resolva o atual impasse, outra estratégia será adotada. Mesmo assim, fez segredo sobre quais serão os próximos passos. "Estratégia não se revela." Em relação à ausência na reunião de sexta-feira (05) entre todos os governadores e Fernando Henrique, Itamar disse não estar arrependido. Para ele, a formatação do encontro estava errada. "Até porque os governadores reeleitos estão em situação diferente dos eleitos", explicou. "Mas, como poderia participar de uma reunião, se o presidente fala em bandeira branca e, no mesmo dia, bloqueia R$ 17 milhões dos cofres de Minas Gerais", lamentou o governador, lembrando que o presidente, em nenhum momento, falou no encontro da repactuação da dívida.
Itamar lembrou que a dívida de Minas Gerais deveria ser renegociada, até porque uma das cláusulas fazia alusão a um crescimento na arrecadação, de 12,8%, em 1998. Mas, nesse período, a arrecadação de Minas Gerais teve um decréscimo de 2 7%. Ele também voltou a criticar a política econômica do governo federal. "O Plano Real foi desviado, já que o presidente se preocupou com a emenda da reeleição", atacou Itamar. "Meu partido, infelizmente é da base de sustentação do governo, mas sabe que eu tenho uma posição crítica em relação à política econômica do governo."
Ele também descartou estar fazendo oposição com o objetivo de marcar posição para a sucessão de Fernando Henrique. "Em 2002, eu vou estar em Anacapri", disse o presidente, citando uma localidade de Capri, no Mediterrâneo. Segundo interlocutores de Itamar, ao falar que vai estar em Capri, o que está completamente fora das cogitações do ex-presidente, ele tenta desviar o assunto, como uma forma de dizer indiretamente que estará no Brasil para disputar a sucessão. Apesar do tom crítico das afirmações, a bancada do PMDB no Senado recebeu positivamente a presença de Itamar. "O partido passa a ser um interlocutor desse diálogo", disse Barbalho.
Mesmo assim, ele ressaltou na reunião que o PMDB continua sendo um partido da base de sustentação do governo, até com a participação de ministros. "Itamar ganhou nosso apoio para a intermediação do impasse", disse Barbalho, evitando qualquer outro tipo de compromisso.


