Marselha, França, 24 (AE) - O governador de Minas Gerais
Itamar Franco (PMDB), desafiou hoje, em Marselha, na França, o presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga Neto, definido por ele como "um alienígena desinformado", para um debate em Nova Iork, no Conselho das Américas, no mesmo local onde ele recentemente desaconselhou investimentos no Estado. Itamar afirmou que Fraga Neto, homem da comunidade financeira internacional, poderá, se quiser, ser assessorado pela empresa norte-americana Southernrs Eletric Brasil, grupo minoritário norte- americano afastado da direção das Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig), após uma decisão judicial.
Esse desafio foi lançado quando o governador mineiro confirmava os efeitos negativos para Minas Gerais, no plano externo, das declarações do presidente do BC, mesmo se o Estado nada tenha sofrido na área de investimentos. Esse debate, que seria dirigido aos investidores, poderá também ocorrer em outras partes do mundo, em Washington ou Paris, onde o presidente do BC escolher, e pode desenvolver-se em qualquer uma das línguas preferidas dele, acrescentou o governador. Essa seria uma boa ocasião para esclarecer as afirmações de Fraga Neto, que disse que o governo de Minas Gerais cometia desatinos, e as da empresa Southernrs, que afirma que a Cemig está sendo mal-administrada.
Essa recente evolução parece ter comprometido definitivamente o difícil relacionamento político entre Itamar e o presidente Fernando Henrique Cardoso. Pelo menos, quando perguntado se não passava pela cabeça dele o restabelecimento das relações políticas com o presidente, Itamar respondeu: "Ele optou por uma outra política; hoje, seria impossível caminharmos juntos politicamente; não há como estarmos na mesma faixa."
Antes, ele fez um resumo da evolução das relações com FHC, dizendo que foi o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero "o sacerdote do Plano Real ", citando também o papel desempenhado pelo ex-ministro Ciro Gomes. Para Itamar, não há nada de pessoal contra o presidente, mas ele imaginava que FHC fosse seguir uma linha de conduta política mais próxima do passado dele, dos livros e da convivência, mas "Sua Excelência buscou outros caminhos".
Itamar encontra-se numa cruzada para derrotar FHC em 2002. Tudo indica que, daqui para frente , a cruzada de Itamar será para derrotar o presidente FHC e o grupo político dele em 2002. Ele não deixa muitas dúvidas que esse é o eu objetivo.
Perguntado se a guinada à esquerda, o discurso contra a globalização e as privatizações, por exemplo, não constituía uma forma de abrir um espaço à oposição para obter apoio de partidos como o PT, Itamar diz que é muito cedo para falar sobre isso. "Sou um matemático que não se baseia em hipóteses."
A meta dele é outra: "O que mais desejo é ajudar a mudar os personagens que estão dirigindo a política brasileira; precisamos tirar democraticamente esse pessoal de lá, pela eleição e pelo voto."
Para isso pretende, aliar-se a forças com quem tem diferenças, mas não muito profundas. "É claro que cada partido tem sua ideologia e suas particularidades, mas o mais importante é afastar com urgência, em 2002, todo essa gente que lá se encontra."
Isso explica também a coincidência da visita à Europa no momento que FHC deverá visitar o Estado. Itamar disse que, até o dia da saída do Brasil, não havia recebido nenhuma comunicação oficial do Palácio do Planalto: "Fui presidente e sei que as deslocações do presidente não se improvisam e são previstas pelo menos 15 dias antes." Segundo Itamar, o compromisso na França havia sido acertado há muito tempo, mas não é isso que afirma a direção de Attac, essa associação de luta contra os capitais especulativos, que afirma ter convidado o governador há apenas 20 dias. Ele lembrou que o presidente não visitou Minas Gerais no Dia de Tiradentes, o patrono do Estado, acreditando que o presidente tenha tido outros compromissos mais importantes. Até hoje, ele ainda não sabe se o presidente irá ou não a Minas Gerais.
Essas divergências entre os dois são hoje tão profundas que Itamar reconhece que está forçando, junto ao PMDB, uma convenção extraordinária em janeiro, quando o partido deverá definir se continua ou não apoiando a política presidencial. Ele tratou disso com a direção nacional do partido e conversou com o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP). Se o PMDB quiser continuar apoiando a política presidencial, pode fazê-lo, segundo Itamar, que diz ter uma grande tristeza com esse partido pelo comportamento atual. Itamar lembra que veio MDB e assiste hoje com muita tristeza a uma evolução partidária negativa. Por isso, está disposto a esperar pela convenção de janeiro, pedida pelo diretório mineiro. "Mas, se o partido optar por permanecer nessa mesma posição, nessa data vou escolher meu destino", afirmou, deixando implícita a possibilidade de uma eventual saída do PMDB.
Apresentado como o espantalho das privatizações no Brasil pela associação que o convidou para falar em Marselha, Itamar confirmou a fama prometendo que não permitirá a privatização de Furnas em Minas Gerais, "essa filha da Cemig, vítima de um atentado à soberania nacional". A questão, revelou Itamar, não é só Furnas, mas é o que ela representa em termos de mananciais de água. Por isso, o governador de Minas Gerais afirmou que está na linha de frente da campanha contra a privatização de Furnas: "Essa eu pago para ver; duvido que a privatização possa ocorrer." Treze juristas foram consultados por Itamar e todos consideram ilegal essa privatização.

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