Itamar critica Nova York política econômica de FHC8/Mar, 16:48 Por Mônica Yanakiew Nova York, 08 (AE) - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (sem partido), criticou hoje, ao chegar a Nova York, a política econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso e a venda de 33% das ações da estatal Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) à Southern Electric, dos Estados Unidos. "O Brasil, se continuar do jeito que quer o sr. Cardoso, perderá até a sua bandeira nacional", disse Itamar, ao criticar a privatização do setor energético e de alguns bancos, além da participação de empresas estrangeiras na cabotagem. Itamar vem a Nova York 14 meses depois de ter decretado a moratória da dívida de Minas Gerais, quando desencadeou uma crise que levou à desvalorização do real. "Itamar Franco é um homem que dá dois passos para a frente e um para trás", disse o diretor de Eestudos do Hemisfério Ocidental da Universidade John Hopkins, em Washington Riordan Roett, onde Itamar deu uma palestra ontem (08) à noite. "Agora, ele está dando um passo para trás, mas existe um enorme contraste entre Itamar Franco, o político, e o Estado de Minas Gerais, que ele governa, onde o nível de educação é um dos mais altos do País e para onde os investimentos estrangeiros continuam fluindo." Roett - que, nos anos 70, considerava o Brasil "o País do futuro" - está escrevendo um livro, revendo a posição. "Hoje, é difícil imaginar que uma nação possa ser levada a sério internacionalmente, quando é incapaz de satisfazer as necessidades básicas de sua população, como educação e saúde", explicou. A visita de Itamar a Washington foi organizada pela ex-namorada do governador June Drumond, que trabalha no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e conhece estudantes da John Hopkins. Tanto June (que tem casamento marcado para maio) como a filha do governador Georgiana Forrest (que se casou há pouco com um americano) moram em Washington e assistiram à palestra na universidade. Depois do discurso - no qual criticou abertamente o acordo do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a abertura "exagerada" do mercado brasileiro e o processo de privatização - Itamar respondeu a perguntas. Várias vezes, ele mencionou Fernando Henrique - mas nunca como presidente. Chamou-o sempre de "professor", "sr." e "ex-ministro da Fazenda" do governo dele. Um investidor, que assistiu à palestra em Washington, levantou a questão que hoje preocupa os americanos: a decisão do governador de questionar na Justiça a venda de um terço das ações ordinárias da Cemig à Southern Electric, realizada pelo antecessor, o ex- governador Eduardo Azeredo (PSDB). Se um negócio feito por um governador pode ser revisto por outro, que garantias terão as empresas estrangeiras interessadas em investir no Brasil de que os contratos assinados serão respeitados? A Southern Electric, lembrou o investidor, "é uma empresa grande, com negócios na ásia, na Europa e no Oriente Médio, que cotiza na bolsa". Itamar - que, nesta viagem, foi acompanhado pelo presidente da Cemig, Djalma Bastos de Morais, e alguns dos assessores - defendeu a posição. "Investimentos estrangeiros nós aceitamos, negócios escusos não", respondeu. Como exemplo de "bom investidor", o governador citou a empresa americana Cargill (cujo representante também estava presente e elogiou o governador). Mas criticou a Southern Electric por ter comprado as ações da Cemig com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a juros mais baixos que os de mercado. Além de não ter investido o próprio capital, disse Itamar, "em dois anos, a Southern Electric retirou mais de US$ 90 milhões em dividendos e, este ano, retirará outros US$ 30 milhões", transferindo o dinheiro para as Ilhas Cayman - um paraíso fiscal. Ele também questionou o acordo, feito pelo antecessor sem a aprovação da Assembléia Legislativa, que deu à empresa americana o mesmo poder de voto que o Estado, apesar de o governo mineiro ter 51% das ações ordinárias. Em agosto, Itamar recorreu à Justiça para modificar o acordo e conseguiu a aprovação do juiz para destituir os diretores nomeados pela Southern Electric. O processo afetou a Cemig, cujas ações caíram. Por isso mesmo, o presidente da empresa e dois assessores - o gerente Cristiano Correia de Bastos e o superintendente de Controle Financeiro, Luís Fernando Rolla - estão numa missão internacional para tranquilizar os investidores. "As ações caíram um pouco porque a percepção de risco é maior, mas não falamos do processo de privatização ou da revisão", explicou Barros.''Falamos da empresa e de seu bom desempenho", acrescentou. Nos Estados Unidos, ele falou com investidores em Los Angeles, Washington e Nova York, e, na Europa, manteve encontros em Londres e Edinburgo. "Temos 130 mil acionistas no mundo inteiro", explicou. Além de investidores, estavam presentes na palestra na Universidade John Hopkins representantes das instituições financeiras que socorreram o Brasil na crise do real - entre eles, o representante do governo brasileiro no FMI e no Banco Mundial (Bird), Murilo Portugal. Mas ele não fez qualquer comentário sobre as críticas de Itamar à "ingerência externa" na política econômica do atual governo. Itamar também falou sobre os planos para o futuro: unir as forças de esquerda para patrocinar um candidato à Presidência em 2002. "No momento, não penso em ser candidato", disse. "Quero apenas ajudar alguém a tirar quem hoje comanda nosso País com o apoio das forças do capital externo", explicou. Um dos participantes da palestra abordou, indiretamente, a relação de Itamar com Fernando Henrique. "Quando o sr. era presidente, indicou Fernando Henrique Cardoso para ministro da Fazenda; hoje, escolheria outra pessoa?" , perguntou. Itamar sorriu. "Meus amigos brincam e dizem que o meu epitáfio terá uma frase: 'Itamar, recorde sempre do professor Cardoso, mesmo morto'".