Belo Horizonte, 18 (AE) - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), confirmou hoje que está disposto a usar a Polícia Militar para tentar impedir a privatização da Hidrelétrica de Furnas, no Sudoeste do Estado, caso perca a batalha contra a venda da empresa no Judiciário - ele deve entrar com uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin), a ser interposta no Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo Itamar, que concedeu entrevista à tarde, no Palácio da Liberdade, em companhia do comandante-geral da PM, coronel Mauro Lúcio Gontijo - o objetivo foi explicar as "manobras militares" a serem feitas na região de Furnas, em outubro -, Minas Gerais não quer confronto "com quem quer que seja, a não ser que haja provocações".
"Não esperamos um enfrentamento, nada que venha a quebrar o princípio do Estado democrático", disse, ao ser questionado sobre a possibilidade de um confronto entre a PM mineira e as Forças Armadas, na hipótese de Furnas vir a ser privatizada. "Mas preciso dizer que nós, de Minas, estaremos prontos para defender os interesses nacionais", acrescentou o governador. Itamar sobrevoou ontem (17), acompanhado de assessores e comandantes da PM, a região de Furnas.
O grupo de 64 policiais, entre eles integrantes do Batalhão de Missões Especiais e de unidades locais da corporação
montou acampamento por três dias numa fazenda da região, para traçar as diretrizes das manobras, que começam dentro de um mês e meio. Itamar garantiu que o sobrevôo nem era necessário.
"Trabalhei na região muitos anos, como engenheiro, e sei o que Furnas significa", disse. Da mesma forma, o governador procurou afastar a idéia, sugerida pela Executiva Estadual PT em Minas Gerais, também contra a privatização, de ser feito um plebiscito no Estado para saber o que pensa a população. "Vou dizer que isso não é preciso", afirmou Itamar, alegando que a importância da empresa é conhecida e reconhecida em todo o País.
Gontijo informou que as manobras são rotineiras e costumam ser feitas anualmente pela corporação. Ele não quis revelar o efetivo a ser usado, mas adiantou que a operação, que envolve também o Corpo de Bombeiros, deverá custar R$ 455 mil aos cofres estaduais.
"Esses recursos serão gastos em ítens como armamentos, alimentação e transporte da tropa", disse.
Gontijo assegurou que os objetivos principais das manobras são o adestramento dos policiais. Eles vão treinar ações como combate e repressão a crimes, blitze e vigilância em rodoviais, estratégias de preservação ambiental e preparação da corporção para lidar com catástrofes.
Na região de Capitólio, a 260 quilômetros de Belo Horizonte - município escolhido pela PM e pelo governador para sediar o comando das manobras - a população, embora seja contra a privatização de Furnas, tem dois grandes temores. O primeiro é de que o governador, que ameaçou também desviar rios que deságuam na represa de Furnas, se a empresa for vendida, determine a destruição de um dique de 37 metros de altura sobre o Rio Grande.
Com isso, grandes áreas seriam inundadas. "Eu ofereço-me para intermediar a paz entre o governador Itamar Franco e o presidente Fernando Henrique Cardosopara evitar que isso aconteça", disse a dona de casa Ana Maria Ratz, de Capitólio, que acompanhou a movimentação da PM na cidade, no início da semana.
Outra parcela dos moradores, em pânico, tem medo de que a região seja palco de uma guerra entre a PM e tropas federais. "É o que todo mundo está comentando", afirmou o lavrador João Mendes Santana, de 63 anos, outro curioso que observava, à distância, as conversas dos oficiais da PM.
Já as lideranças políticas da região de Furnas, que compreende 34 municípios, garantem que todos os prefeitos locais apóiam o governador na luta para evitar a privatização da empresa. A explicação é simples: Furnas paga royalties às cidades que tiveram parte das áreas alagadas pela represa e os admistradores temem perda de receita. No caso de Capitólio, por exemplo, os royalties significam 10%, ou R$ 25 mil, dos R$ 250 mil arrecadados mensalmente.
O prefeito da cidade, Antônio Carlos Soares, peemedebista como o governador, até cedeu a fazenda da qual é proprietário para que a PM montasse o quartel-general das operações de outubro.

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