Itamar chama governo federal de covarde
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de outubro de 1999
Por Reali Júnior 
Paris, 27 (AE) - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), chamou hoje, em Paris, o governo federal de covarde por causa do silêncio do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao não responder à nota da embaixada norte-americana, definida pelo peemedebista como uma tentativa de ingerência nos negócios internos do Estado.
"Essa covardia do nosso governo é incrível; faço essa declaração com muita tristeza." A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília divulgou nota segnda-feira (25) em que manifesta "preocupação" com a exclusão dos diretores representantes dos acionistas minoritários do Conselho das Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig), no dia 7, e lançou um alerta sobre as implicações da decisão, referendada segunda-feira pela assembléia geral da companhia.
A ausência de reação constitui para o governador de Minas Gerais "uma atitude lamentável do presidente". Ele citou o nome do deputado André Franco Montoro (PSDB-SP), que morreu esse anom, que, ao ver dele, jamais teria tido um comportamento semelhante.
Itamar disse que, hoje em dia, os tempos são outros e os homens, também. Itamar prometeu falar mais forte contra a nota norte-americana assim que chegar ao Brasil.
Ao mesmo tempo, em Paris, logo após ter dado a aula inaugural da cátedra Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) do Instituto de Ciências Políticas, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Luís Felipe Lampreia, alegando estar afastado há dias do Brasil, não quis comentar a ausência de manifestação do governo brasileiro condenando a iniciativa da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, como esperava o governador mineiro. Outras fontes diplomáticas brasileiras tentaram reduzir o impacto desse episódio, dizendo que um protesto dessa natureza envolvendo uma empresa é normal na diplomacia e nem por isso deve ser transformado em crise diplomática. Essas mesmas fontes lembram que, muitas vezes, o Brasil protesta contra o comportamento de uma determinada empresa num Estado norte-americano, sem que haja resposta oficial do governo dos EUA. Ele está satisfeito com as declarações do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que, "felizmente, Lula tem senso de responsabilidade patriótica e do respeito à soberania".
Nas declarações, Itamar deixou transparecer tristeza em relação ao antigo amigo, FHC, apesar de dizer sempre que não guarda ressentimentos: "Tive por ele muito respeito e amizade; tenho todas as nossas conversas guardadas; quando ele fecha os olhos, deve lembrar-se de algumas delas; tanto ele como eu temos de ter cuidado quando falamos um do outro..."
Nem por isso, entretanto, deixou de criticar o ex-ministro da Fazenda e das Relações Exteriores dele , lembrando que, pela primeira vez, um presidente comunica a organismos internacionais uma questão de um dos Estados brasileiros. Ele referiu-se à decretação de moratória de Minas Gerais, denunciada pelo governo federal a bancos estrangeiros.
Itamar relançou o desafio ao presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga Neto, para um debate em Nova Iork: "Afinal, qual a dificuldade de Fraga debater com um ex-presidente da República?; por que não aceita debater?; será que se julga muito importante?"
Diante da ausência de resposta ao desafio, perguntado se poderia debater com outro membro do governo, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, por exemplo, Itamar respondeu afirmativamente, mas lembrou : "O dr. Malan é mais cuidadoso, mas o outro está há muito tempo fora do Brasil e não conhece nada." Citando a experiência de presidente da República, Itamar chamou atenção dos homens que estão no poder, dizendo: "Eles vão sentir como o poder é fugaz; eles pensam que vão morar o tempo todo no Palácio da Alvorada."
Itamar não acredita que a viagem à Europa e as declarações estejam criando um clima negativo e de constrangimento, prejudicando novos investimentos no Brasil.
Pelo contrário, prefere citar o encontro na noite anterior, em Deauville, com os representantes dos bancos cooperativos franceses, o Crédit Popular, o quarto grupo bancário da Franca, com quem concluiu um acordo de cooperação técnica . O presidente do Bred, Steve Gentili, um dos bancos desse grupo, afirmou que a instituição se interessa por negócios e não por eventuais querelas políticas entre o governador de Minas Gerais e o governo federal, manifestando o desejo de ampliar as relações com o Estado e lembrando que Itamar foi o convidado de honra desse encontro. Para Itamar, quem tem prejudicado o país é Fraga Neto, com as "declarações inconsequentes", e "outros homens que nos dirige, responsáveis pelo empobrecimento do Brasil nesses últimos quatro anos".
Os Bancos Mundial (Bird) e Interamericano de Desenvolvimento (BID), via Malan , cessaram negociações com Minas Gerais.
Ele reconheceu, entretanto, que, após a moratória e via Malan (apesar de ter sido por ele presidente do BC), tanto o Bird como o BID cessaram os entendimentos com Minas Gerais.
Diante disso, está procurando outros caminhos, por exemplo, uma abertura na França para Minas Gerais, tendo acrescentado: "Espero que o dr. Fernando não vai nos bloquear novamente; acho que, com a França, será bem mais difícil." Para alcançar esse objetivo, ele anunciou a criação de uma representação do governo de Minas Gerais em Paris, o que deverá facilitar o desenvolvimento de uma forte cooperação em vários setores, não só com os franceses, mas também com outros países europeus. Ele poderá ter, por exemplo, o apoio dos bancos populares para o desenvolvimento de numerosos projetos.
O governador comentou a nova decisão judicial sobre o caso das Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig), mostrando-se satisfeito, pois, de acordo com ele, o essencial foi preservado, isto é, os majoritários guardam o controle da empresa, mas prometeu recorrer por meio da Procuradoria do Estado.
Por isso, não estranha quando se procura criar uma legislação que garanta os direitos dos sócios minoritários, proposta por Malan e apoiada por Fraga Neto. Ao ver de Itamar, os direitos devem ser respeitados, mas não concorda que os sócios minoritários possam mandar nas empresas, tendo acrescentado: "Duvido que os norte-americanos e os franceses possam permitir isso." "No caso da Cemig, o que pretendeu foi preservar os direitos de controle dos sócios majoritários, respeitando os direitos específicos dos minoritários."
Para Itamar, hoje em dia, defender os interesses do povo constitui uma luta longa e difícil, sendo preciso ter muita serenidade, ganhando ou perdendo. Tudo isso será levado às praças públicas quando do debate eleitoral. Aliás, ele está convencido de que o debate político poderá ser acelerado no Brasil, apesar de ser ainda muito cedo para se falar da sucessão presidencial.


