Belo Horizonte, 12 (AE) - O governador mineiro Itamar Franco condicionou o fim do impasse com o governo federal a quatro medidas consideradas "inegociáveis" pelo Palácio do Planalto. Em encontro hoje com os três ministros do PMDB, enviados pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para colocar um ponto final na crise, Itamar exigiu que sejam suspensos todos os bloqueios de recursos estaduais e que tais medidas de retalização não sejam repetidas enquanto perdurarem as dificuldades financeiras de Minas. O governador quer ainda a devolução dos recursos retidos do Estado, que totalizava hoje R$ 90 milhões. "Para mim
Minas Gerais passou por uma intervenção branca do governo federal", afirmou Itamar. A terceira imposição do político mineiro é a de que o governo federal retire a orientação enviada aos organismos internacionais de crédito para que não sejam concedidos novos financiamentos ao governo de Minas.
Por último, o governador não abre mão da revisão de alguns termos do contrato de renegociação da dívida do Estado, assinado pelo seu antecessor, o ex-governador Eduardo Azeredo (PSDB). Itamar quer que o Palácio do Planalto concorde com a moratória que foi decretada em janeiro, dando-lhe um prazo para o pagamento das parcelas da dívida, ou que reduza para 7% o limite de comprometimento da receita do Estado com o pagamento dessa dívida, hoje fixado em 12,5%.
O encontro do governador com os ministros não produziu os resultados esperados pelo governo. "Tentamos, ninguém pode dizer que não fizemos nossa parte para o entendimento, como membros do PMDB e representantes do governo federal", disse um dos ministros que vieram à capital mineira, antes de voltar a Brasília. Os ministros Eliseu Padilha (Transportes), Renan Calheiros (Justiça) e Ovídio de Angelis (Políticas Regionais) passaram duas horas conversando no Palácio da Liberdade com o governador Itamar, que estava acompanhado do chefe de seu gabinete civil, Henrique Hargreaves, e do secretário de Finanças
Alexandre Dupeyrat.
O governador gastou boa parte do encontro expondo aos emissários do presidente os procedimentos adotados pela União no confronto com Minas Gerais e criticou a ação de Fernando Henrique. "Foi a última conversa, o governo cumpriu sua parte"
disse um integrante do governo, irritado com a resistência de Itamar Franco e com o constrangimento imposto aos ministros, no cenário "hostil" montado no Palácio da Liberdade, enquanto o governador recebia os interlocutores do Planalto. Na porta da sede do governo, um grupo de estudantes gritava palavras de apoio a Itamar e ofensivas a Fernando Henrique, com faixas criticando o bloqueio federal das contas do Estado.
Depois da reunião, os três deram uma entrevista em que não esconderam o fracasso. "Nossa missão era fazer com que ficasse claro para todos que tanto Minas quanto o governo federal querem o entendimento", justificou Eliseu Padilha. "Os interesses do Brasil são muito maiores que as divergências pontuais, e vamos levar ao presidente essas divergências", acrescentou ele, que pretendia relatar a conversa de Belo Horizonte ainda hoje ao presidente.
"Se for possível, vamos chegar ao entendimento, se não for, paciência, ao menos tentamos", emendou Renan Calheiros, que disse não estar preocupado com o resultado imediato da conversa, mas com a federação. O ministro deixou escapar o clima tenso do encontro. "Temos de escolher entre duas veredas, a que aponta para a distensão e o consenso, o entendimento e a lucidez, e a outra, que indica o confronto, a radicalização, a guerra."
Enquanto os ministros tentavam abrandar o clima de impasse, Itamar Franco dirigiu-se ao fundo do Palácio para receber um grupo de mulheres, que lhe levaram apoio. A elas, Itamar disse: "Acabo de receber três ministros do presidente da República e os recebi educadamente, mas disse a eles que não compareço a um encontro com quem quer que seja, enquanto não houver o desbloqueio das contas de Minas.Nunca um presidente da República comunicou a organismos internacionais de crédito os problemas de Estados federados; essa situação há de doer no povo mineiro, mas há de doer, sobretudo, nos brasileiros."
Um dos fiéis auxiliares de Itamar, o secretário de Estado Raul Belém (PFL-MG) sustenta: "Itamar não vai ceder, porque a reação do governo federal é desproporcional ao fato". Segundo Raul Belém, Itamar só mudará de opinião e aceitará conversar com Fernando Henrique se o Planalto suspender todas as medidas contrárias a Minas e enviar um fax convidando-o. "Esta é uma situação que só será resolvida com um grande gesto político."

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