Itamar afirma que FHC prepara intervenção federal em MG
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quarta-feira, 03 de março de 1999
Por Gilse Guedes 
Rio, 04 (AE) - O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), disse hoje que o presidente Fernando Henrique Cardoso está preparando terreno para uma intervenção federal no Estado. Ele afirmou que o contrato de dívida assinado pelo antecessor, Eduardo Azeredo (PSDB), prevê a repactuação em caso de impossibilidade de pagamento pelo governo mineiro. "Quando o governo federal quer, se faz", disse. Questionado sobre o futuro da frente de governadores de oposição, Itamar afirmou que o bloco não existe.
O ex-presidente admitiu que o Estado está numa situação pré-falimentar, mas que irá encontrar soluções para o problema. Ele reuniu-se hoje, no fim do dia, com o secretário de Fazenda de Minas Gerais, Alexandre Dupeyrat, para avaliar se irá prorrogar a moratória da dívida do Estado. Ele ainda teve um encontro, de duas horas e meia, com civis e militares da reserva. Alguns militares saíram da reunião pregando a renúncia do presidente e insinuando possíveis atos ilícitos que estão sendo cometidos pelo atual governo e que estariam ferindo a soberania nacional.
O vice-presidente do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos (Cebres), coronel Amerino Raposo, saiu do encontro lamentando a forma como estão sendo encaminhadas as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) . "Vejo com muita tristeza representantes do FMI se sentarem à mesa com o ministro da Fazenda", afirmou Raposo, que participou do golpe militar de 1964. "Tenho vergonha disso", acrescentou.
Lembrando do impeachment do então presidente Fernado Collor de Mello, Raposo afirmou que é preciso verificar se Fernando Henrique está praticando ilícitos muitos mais graves.
"Já houve um presidente que foi posto para fora", observou. "A meu ver, isso (ferir a soberania nacional) é ilícito muito mais grave do que os imputados a PC Farias e a Fernando Collor."
O coronel Alcio Antunes, também integrante do Cebres, disse que os participantes da reunião com Itamar endossam a proposta de renúncia feita pelo presidente nacional do PDT, o ex-governador do Rio Leonel Brizola.
"Não se tratou de golpe, até porque eu sou pessoalmente contra", argumentou. "O governo tem de cair de podre", completou Antunes, que foi cassado no golpe de 1964. Também estava presente no encontro um representante do Instituto dos Advogados do Brasil, que divulgou essa semana um manifesto criticando durante a atuação do governo federal.
Itamar disse que o governo federal modificou contratos da dívida dos Estados com a União quando lhe era conveniente. Segundo ele, uma medida tomada pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, em 28 de dezembro, modificou o contrato de refinanciamento da dívida de Minas Gerais, autorizando uma operação com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que deu aos cofres do Estado cerca de R$ 41 milhões. "Eu repito: quando se quer, se faz", frase que foi dita várias vezes por Itamar.
Itamar ainda citou benefícios que foram dados a determinadas administrações, como a medida provisória (MP) assinada pelo presidente que permite a renegociação das dívidas dos municípiios, favorecendo até mesmo a Prefeitura de São Paulo.
Dizendo que estava se baseando em notícias de jornais, o governador de Minas Gerais afirmou que a última medida provisória satisfez investidores que especulam com as ações do Banespa. "Eles comemoraram o refinanciamento pelo governo federal da dívida da Prefeitura de São Paulo."
O governador disse que o chefe do Executivo não quer, portanto, resolver o problema de Minas Gerais dentro da lei do contrato. "O chefe do Executivo busca hoje uma intervenção em Minas Gerais", concluiu. Itamar usou em seguida palavras de ordem como "resistência de Minas" e "Tradição de trincheiras no Estado", dizendo que há uma estratégia de solução para a crise mineira.


