Italiana Sônia pode governar a instável Índia Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 21 (AE) - A maior democracia do mundo, a Índia, que possui 970 milhões de habitantes (somente a China a supera em população), por uma pasmosa reviravolta da história, ou melhor, do amor, poderá ser governada por uma italiana, nascida em Turim há 52 anos, Sonia Gandhi.
O governo da direita nacionalista (BJP), de Atal Bihari Vajpayee, que havia 13 meses dirigia o país em Nova Délhi, caiu no início da semana passada porque uma das deputadas da bancada majoritária governista, a brilhante atriz tâmil, chamada Jayalalitha, retirou inesperadamente seu apoio. Como o BJP e seus aliados ficaram privados da maioria no Parlamento, imediatamente o outro grande partido, o Partido do Congresso, deveria assumir o poder.
Este Partido do Congresso, criado na década de 1920 e que foi o promotor da independência indiana, conseguida em 1947, tem uma longa experiência do poder, pois dirigiu a Índia durante 45 dos 51 anos de nação independente. Portanto, este partido, enfraquecido (como aliás todos os outros partidos indianos) por uma corrupção insolente, não tem o prestígio de que gozava na época de seus fundadores, Nehru e Gandhi.
É neste sentido que o Partido do Congresso promove agora a ascensão de sua presidente, Sônia Gandhi. Embora italiana, a bela Sônia tem um grande trunfo: ostenta o nome dos pais fundadores e é a viúva do último dos primeiros-ministros pertencentes ao Partido do Congresso, Rajiv Gandhi (assassinado por um partidário da independência tâmil de Sri Lanka em 1991).
Desta forma, a impressionante linhagem dos Nehru-Gandhi conheceria uma estranha sobrevivência. O líder ancestral foi Motilala Nehru (1861-1931), um advogado que presidiu o Partido do Congresso. Depois começou o reinado de seu filho, Jawaharlal Nehru (1889-1964), que se tornou primeiro-ministro da India independente em 1947.
Este Nehru era um dos discípulos de Mahatma Gandhi (inventor da "não-violência"), mas não tinha nenhum parentesco com ele.
Depois da morte de Nehru, foi a vez de sua filha assumir o poder.
Esta mulher notável chamava-se Indira Gandhi, mas também não tinha nenhum parentesco com o Mahatma Gandhi (ela simplesmetne se havia casado com outro Gandhi, Feroze Gandhi). Indira foi assassinada. Alguns anos mais tarde, seu filho Rajiv foi também assassinado. E hoje, Sônia, esta italiana que conheceu Rajiv Gandhi nos bancos da Universidade de Oxford e casou-se com ele, está prestes a tomar em suas mãos a tocha de revezamento dessa ilustre e trágica família.
A indicação de Sônia ainda não está garantida. Seu Partido do Congresso não tem maioria absoluta. Só poderá conseguir isso através do jogo de alianças com outras pequenas agremiações políticas. Esta é a praga da vida política na Índia há alguns anos. A Câmara, com 545 cadeiras, conta com 40 partidos, muitos dos quais têm apenas dois a três deputados. É portanto com esta "poeira" de pequenos grupos que os líderes dos grandes partidos devem negociar incessantemente.
Estas negociações são ainda muito mais delicadas porque, neste país imenso, estão em jogo muitos interesses regionais - os dos partidos que só existem nesta ou naquela região. É preciso discutir com estes partidos minúsculos, cujos chefes não sonham absolutamente com o interesse da Índia, mas apenas com os interesses de sua própria região: Uttar Pradesh, ou Gujarat, ou Cachemira, etc...
E, como as duas principais agremiações partidárias (os nacionalistas do BJP e o Partido do Congresso) têm mais ou menos o mesmo peso, basta que um pequeno partido regional decida mudar de campo para que a maioria de toda a Índia oscile para o lado oposto: isto é exatamente o que acaba de acontecer com a deserção de Jayalalitha, esta atriz rutilante e espetacular.
Esta instabilidade crônica, quase estrutural, é um perigo. O próximo governo (talvez o de Sônia Gandhi) será o quarto em três anos. Nada mais detestável do que isso - sobretudo num país onde o fundamentalismo indiano (contra os muçulmanos) se desenvolve e se endurece a cada passo e que ocupa, na ásia, um lugar ameaçado, por ser vizinho do Paquistão que o detesta (e que, como a Índia, possui armas nucleares) e por não estar longe da zona ultrasensível que é o Afeganistão, sem falar do Tibete, da China, etc.





